Quando a Apple removeu a entrada de fones dos iPhones em 2016, muitos consumidores resistiram. A decisão parecia forçar uma migração para o Bluetooth, mas uma tendência recente sugere que a batalha entre fio e sem fio está longe de terminar. Após anos de domínio dos fones sem fio, as vendas de modelos com fio dispararam na segunda metade de 2025, indicando uma mudança cultural e prática nos hábitos de escuta.
Este ressurgimento não é movido apenas por audiófilos puristas. É um fenômeno mais amplo, associado a uma reação contra a tecnologia excessiva, questões de custo-benefício e até mesmo um novo status simbólico. “Parece que muita gente está meio que se voltando contra a tecnologia porque ela está ficando avançada demais”, observa Aryn Grusin, uma assistente social de Portland que aderiu aos fones com fio.
Qualidade Sonora e Custo-Benefício
Uma das razões mais pragmáticas para o retorno é a qualidade de áudio. Chris Thomas, editor especial do site SoundGuys, afirma que, na mesma faixa de preço, um bom fone com fio geralmente oferece som superior ao de um modelo Bluetooth popular. “Com um fio, você simplesmente conecta e funciona”, diz Thomas, destacando a simplicidade e a ausência de problemas de conexão ou compatibilidade que podem afetar dispositivos sem fio.
Uma Tendência Cultural e de Moda
Os fones com fio transcenderam a funcionalidade para se tornarem um acessório de moda. Contas no Instagram, como a “Wired It Girls”, celebram o visual, mostrando desde pessoas comuns até celebridades como Ariana Grande e Charli XCX usando cabos pendurados nas orelhas. A estética foi até interpretada como um marcador cultural. Um tuíte viral comentou fotos de Robert Pattinson e Lily‑Rose Depp usando fones com fio: “Está virando uma questão de classe. Usar fones sem fio 24 horas por dia me diz que você não é dono de terras.”
A Fadiga do Bluetooth e a Nostalgia do Analógico
Para muitos, a conveniência prometida pelo Bluetooth não se materializa. Baterias que acabam, earbuds perdidos e processos de emparelhamento frustrantes são queixas comuns. “As pessoas dizem que é mais fácil, mas nunca parece mais fácil para mim. Com Bluetooth sempre tem uma etapa a mais”, relata Ailene Doloboff, editora de diálogos em Los Angeles.
Este movimento se alinha a uma onda maior de retorno a tecnologias “retrô”, como DVDs, fitas cassete e máquinas de escrever. Em um contexto de avanço acelerado da inteligência artificial, os fones com fio representam uma conexão tangível e simples, um refúgio do digital excessivo. “Talvez os fones com fio sejam o mais perto do analógico que conseguimos chegar”, reflete Grusin.
O Mercado e o Futuro
Lojas especializadas e até mesmo a Apple reportam um aumento nas vendas de fones com fio. Delaney Czernikowski, da loja Audio 46 em Nova York, confirma: “Muita gente está aderindo à tendência. Eles chegam dizendo: ‘Acho que fones com fio são melhores, quero experimentar’.”
Ela ressalta que, embora o Bluetooth de alta qualidade exista, os fones com fio oferecem uma gama mais ampla de opções e desempenho sonoro que não é limitado pela necessidade de incorporar tecnologia sem fio. Para quem deseja fazer a transição, o mercado oferece desde modelos com conectores USB-C ou Lightning integrados até adaptadores para a tradicional entrada de 3,5 mm.
A conclusão é clara: a era dos fones sem fio não os eliminou. Em vez disso, criou espaço para uma coexistência onde a escolha entre fio e sem fio passa por preferências de som, estilo, filosofia e até uma certa resistência à obsolescência programada. Os fones com fio estão de volta, e desta vez, com um apelo que vai muito além do cabo.