O partido Missão, que surge no cenário político com a proposta de representar eleitores mais jovens, esbarra em um paradoxo geracional: a própria juventude de seus quadros pode impedir que tenha um candidato ao Senado por São Paulo nas eleições de outubro. A Constituição exige idade mínima de 35 anos para o cargo, e a legenda, nascida do Movimento Brasil Livre (MBL), depende da liberação da vereadora Amanda Vettorazzo, 37, atualmente filiada ao União Brasil.

A saída de Amanda do partido, no entanto, esbarra na resistência de Milton Leite, líder histórico do União Brasil em São Paulo e ex-presidente da Câmara Municipal da capital. Em declaração ao g1, Leite foi categórico: “o partido não vai liberar” a desfiliação da vereadora. Sem essa autorização, Amanda poderia perder o mandato por infidelidade partidária caso mude de legenda.

Coordenadora nacional do MBL e com cerca de 1,2 milhão de seguidores no Instagram, Amanda Vettorazzo é uma das poucas lideranças do movimento que atende ao requisito etário para o Senado. “É um cargo com muita prerrogativa, muito importante. Se eu conseguir pleitear o Senado, é de fato uma responsabilidade muito grande”, afirmou ela ao g1, antes da manifestação contrária de Milton Leite. Uma reunião entre os dois está prevista para as próximas semanas.

Para a vereadora, o Senado tem um papel estratégico nos objetivos da Missão, justamente por seus mandatos longos (oito anos) e por ser uma instância voltada a decisões de longo prazo. “Elaborar políticas públicas não para a próxima eleição, mas para a próxima geração”, defende. Em sua plataforma, ela propõe a defesa institucional de São Paulo, maior protagonismo do estado nas decisões nacionais e um discurso de controle sobre outros Poderes, citando especificamente o combate a “decisões abusivas do STF”.

Do outro lado, Milton Leite, vereador por quase três décadas, mantém-se como uma das figuras mais influentes da política paulista, comandando o Diretório Municipal do União Brasil. Seu poder permanece intacto, mesmo após denúncias de ligação com a empresa de ônibus Transwolff, investigada por suspeita de conexão com o Primeiro Comando da Capital (PCC).

O dilema do “Partido da Geração Z”

Para o deputado federal Kim Kataguiri, 30, pré-candidato ao governo de São Paulo pela Missão, a falta de quadros com idade para o Senado é um reflexo natural do perfil que o partido busca. “A nossa ideia é ser um partido da geração Z. Naturalmente, geração Z não terá idade para disputar a eleição para o Senado ou para a Presidência [neste momento]. A maioria esmagadora dos nossos quadros é Z, no máximo Millennial. É natural que a gente, representando mais essa parcela da população, tenha menos quadros que tenham a idade para disputar esses cargos”, argumenta.

Kataguiri, que também deixa o União Brasil para concorrer pela Missão, minimiza o impacto da negativa de Milton Leite em sua trajetória, afirmando ter um relacionamento mais próximo com a bancada federal do partido. Sobre a possibilidade de apoiar um candidato de outra legenda ao Senado caso Amanda não seja liberada, ele é taxativo: “Não existe nenhuma hipótese de a gente apoiar nome de outro partido. Ou a gente encontra uma alternativa ou a gente não apoia ninguém.”

Além de Kataguiri para o governo e da tentativa com Amanda Vettorazzo para o Senado, a Missão planeja lançar o deputado estadual Guto Zacarias, 26, para a Câmara dos Deputados, e o subprefeito da Vila Mariana, Rafael Minatogawa, para a Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). Renan Santos é o pré-candidato do partido à Presidência da República.

O impasse envolvendo Amanda Vettorazzo coloca em evidência o desafio que partidos com apelo jovem enfrentam ao buscar espaços no poder que, por regra constitucional, exigem experiência e idade mínima. A janela partidária aberta nesta quinta-feira (5) só vale para cargos legislativos em disputa este ano, não se aplicando ao caso da vereadora, que está no meio do mandato.