O Noma, restaurante dinamarquês triestrelado Michelin e cinco vezes eleito o melhor do mundo, vê sua reputação de excelência abalada por graves denúncias de uma cultura tóxica e abusiva em sua cozinha. Uma investigação do The New York Times revelou um ambiente marcado por agressões físicas, humilhações públicas e exploração de mão de obra.
Segundo relatos de cerca de 35 ex-funcionários que trabalharam no estabelecimento entre 2009 e 2017, o renomado chef René Redzepi protagonizava episódios de violência. “Ele batia, cutucava e empurrava funcionários por erros pequenos e às vezes chegava a socar alguém quando perdia a paciência”, descreveu um ex-colaborador ao jornal norte-americano.
Além da agressividade física, os depoimentos detalham humilhações constantes, ameaças de deportação a funcionários estrangeiros e jornadas exaustivas que frequentemente ultrapassavam 16 horas diárias. A reportagem também expôs a dependência do restaurante de estagiários estrangeiros, muitos dos quais trabalhavam por pouca ou nenhuma remuneração, apesar da carga intensa.
A repercussão foi imediata e custosa. Dois grandes patrocinadores, a American Express e a startup de hospitalidade Blackbird, retiraram o apoio a um “pop-up” (restaurante temporário) que o Noma inauguraria em Los Angeles, com ingressos a US$ 1.500 (cerca de R$ 7.700) por pessoa. Ambas as empresas anunciaram que reembolsariam os clientes e doariam os valores a organizações de defesa dos trabalhadores do setor.
“As práticas passadas de René, segundo ele próprio admitiu, eram inaceitáveis e abomináveis”, declarou Ben Leventhal, fundador da Blackbird. “Não podemos simplesmente nos apoiar no tempo decorrido e em alegações de reabilitação quando essas coisas ressurgem.”
Considerado um ícone da gastronomia contemporânea e responsável por redefinir a culinária nórdica com ingredientes locais e experimentais, Redzepi agora enfrenta protestos. Organizações como a One Fair Wage planejam atos em frente ao Noma temporário em Los Angeles, exigindo compensação para ex-funcionários e mudanças nas políticas trabalhistas.
Em resposta às acusações, uma porta-voz do Noma afirmou ao The New York Times que, nos últimos anos, o restaurante implementou mudanças, incluindo a criação de um departamento de recursos humanos formal, treinamento para gestores e maior flexibilidade de horários. O restaurante, no entanto, não se manifestou diretamente sobre os relatos específicos de agressões.