Em meio à escalada de tensões no Oriente Médio, o Brasil surge como um potencial beneficiário inesperado da crise geopolítica. O fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã, rota crítica que escoa cerca de 20% do petróleo global, pode redirecionar a demanda mundial para fornecedores alternativos – e o país está estrategicamente posicionado para capitalizar essa oportunidade.

Analistas apontam que nações asiáticas e europeias, dependentes do petróleo do Golfo Pérsico, podem buscar novas fontes de abastecimento. Com uma infraestrutura consolidada de portos e oleodutos, e rotas marítimas que evitam pontos de conflito, o Brasil tem condições de suprir parte dessa demanda emergente.

“A China consome metade de todo o petróleo produzido no Oriente Médio. Se a situação se prolongar, terá que procurar alternativas. O Brasil está bem posicionado”, afirma Matt Smith, consultor da Kpler, empresa global de análise de dados de navegação.

Os números reforçam o potencial: em 2025, o Brasil exportou US$ 44 bilhões em petróleo bruto, sendo 45% desse total destinado à China. Roberto Ardenghy, presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP), avalia que, se a crise persistir, o país poderá se consolidar como fornecedor alternativo ao lado de nações como Argentina, Nigéria e Guiné Equatorial.

Contudo, especialistas destacam que os benefícios dependem de dois fatores cruciais: a duração da crise e a capacidade brasileira de expandir a produção. Atualmente, o país produz 3,6 milhões de barris diários, exportando 1,6 milhão. Aumentos significativos na oferta demandariam meses ou anos, devido à natureza gradual dos projetos de exploração.

Os impactos econômicos seriam mistos. Por um lado, o aumento nos preços e nas exportações elevaria a arrecadação de tributos, royalties e dividendos da Petrobras – o governo federal recebeu R$ 28,8 bilhões em dividendos da estatal em 2024. Por outro, a alta nos preços do petróleo pressionaria os custos de importação de derivados como gasolina e diesel, com efeitos inflacionários.

O mercado financeiro já reagiu: as ações preferenciais da Petrobras valorizaram-se 3,57% em dias recentes, refletindo expectativas de melhores margens com a alta internacional do barril.

Smith ressalta que uma mudança sustentada nos fluxos globais exigiria pelo menos quatro semanas de instabilidade. “Se o Estreito de Ormuz for reaberto rapidamente, talvez não vejamos essa busca por parceiros alternativos agora”, pondera.

Além disso, o petróleo do Oriente Médio mantém vantagem logística: enquanto um navio leva cerca de 20 dias do Golfo Pérsico à China, a rota do Brasil para o país asiático dura aproximadamente 45 dias.

Ardenghy lembra que um fechamento prolongado do Estreito de Ormuz é inédito e enfrentaria pressões geopolíticas. “Há um interesse estratégico das superpotências, especialmente da China, em manter a navegabilidade. Haverá pressão para uma solução.”

Assim, enquanto a crise no Irã abre uma janela de oportunidade para o Brasil no mercado global de energia, sua concretização depende de um delicado equilíbrio entre fatores geopolíticos, capacidade produtiva e timing.