A ofensiva militar conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o Irã e a subsequente retaliação iraniana contra países do Golfo Pérsico escancararam profundas fissuras no seio do Brics. O bloco, recentemente ampliado para dez membros, não só falhou em emitir uma declaração conjunta sobre a crise como também apresentou posicionamentos públicos divergentes entre seus integrantes, evidenciando uma falta de coesão em um momento crítico.

Enquanto membros fundadores como Brasil, Rússia e China condenaram veementemente a ação de Washington e Tel Aviv, outros países do grupo, como Emirados Árabes Unidos e Índia, concentraram suas críticas nas retaliações do Irã. A África do Sul adotou um tom mais equilibrado, manifestando preocupação geral com a escalada. Este cenário contrasta com a unidade demonstrada pelo bloco durante um conflito similar em 2025, quando emitiu uma nota conjunta sob a presidência brasileira.

A estratégia iraniana de atingir alvos em monarquias do Golfo, incluindo infraestruturas civis, é vista por analistas como uma tentativa de pressionar esses aliados regionais dos EUA a exigirem um cessar-fogo. A Arábia Saudita advertiu sobre seu direito de resposta, enquanto os Emirados Árabes Unidos descartaram ação militar direta, apelando à mediação da ONU.

A atual falta de unidade ocorre em um contexto de expansão recente e conturbada do Brics. Entre 2023 e 2025, o grupo incorporou Egito, Etiópia, Emirados Árabes Unidos, Irã e Indonésia, em um movimento impulsionado principalmente pela China e resistido pelo Brasil, que temia uma perda de protagonismo e coesão. A presidência rotativa, atualmente nas mãos da Índia – país com laços estreitos com EUA e Israel –, não demonstrou interesse em articular uma posição comum sobre o conflito, segundo diplomatas brasileiros.

As divergências são marcantes: a Índia condenou as retaliações iranianas, mas evitou criticar o ataque inicial israelo-americano. Rússia e China foram explícitas em condenar a ofensiva ocidental, classificando-a como violação do direito internacional, mas sem indicar ações concretas de apoio ao Irã. O Brasil emitiu notas condenando ambos os lados – primeiro a ação de EUA/Israel, depois as retaliações iranianas. Enquanto isso, novos membros como Indonésia e Etiópia mantiveram posições genéricas ou discretas.

Este racha pós-expansão coloca em xeque a capacidade do Brics de atuar como um bloco coeso em crises geopolíticas complexas, levantando dúvidas sobre o futuro de sua influência coletiva no cenário internacional.