“Quando ele chegava, dava para sentir a ansiedade e o medo dos funcionários.” É assim que Namrata Hegde, chef indiana de 29 anos, descreve a atmosfera na cozinha do renomado restaurante Noma, em Copenhague, durante o período em que era comandado pelo chef dinamarquês René Redzepi.
Redzepi anunciou recentemente que deixou a liderança do restaurante após denúncias de agressões e humilhações contra funcionários, reveladas pelo jornal “The New York Times”. O caso ouviu cerca de 35 pessoas que trabalharam no local entre 2009 e 2017.
Namrata Hegde realizou um estágio não remunerado de três meses no Noma, entre outubro e dezembro de 2018. Apesar de pouco contato direto com Redzepi, ela relata que o ambiente, já tenso, piorava visivelmente com a presença do chef.
O estágio prometia uma experiência educacional completa, mas a realidade foi marcada por tarefas repetitivas. Namrata passou boa parte do tempo produzindo cerca de 120 unidades por dia dos “fruit-leather beetles”, uma preparação em forma de besouro feita com massa de fruta.
Ela descreve a cozinha como “extremamente competitiva e tensa”, com estagiários tentando se destacar e, em alguns casos, sabotando uns aos outros. O clima era de silêncio e disciplina rígida: “Você não podia conversar, não podia rir. Pegava mal”.
Um episódio ilustrativo ocorreu quando um estagiário cortou a mão. Em vez de ajuda imediata, algumas pessoas riram e disseram que ele “não era material para o Noma”. Ele precisou buscar sozinho o kit de primeiros socorros.
Para Namrata, o comportamento na cozinha refletia a liderança tóxica. Após sua experiência no Noma, ela enfrentou ansiedade, sensação constante de urgência e sintomas de estresse pós-traumático. A experiência, no entanto, reforçou seu compromisso de tratar todos com respeito, independentemente do cargo.
Hoje, vivendo em Nova York, ela deixou as cozinhas profissionais e atua com mídia gastronômica como food stylist e escritora.
Em resposta às acusações, René Redzepi publicou uma nota no Instagram assumindo responsabilidade por suas ações e pedindo desculpas. Ele anunciou seu afastamento da liderança do Noma e renunciou ao conselho da MAD, organização sem fins lucrativos que fundou.
“Tenho trabalhado para ser um líder melhor e o Noma deu grandes passos para transformar sua cultura ao longo de muitos anos. Reconheço que essas mudanças não reparam o passado”, disse o chef.
Namrata Hegde, no entanto, vê o anúncio com ceticismo, duvidando que Redzepi se afaste completamente, já que ele ainda está ligado a outros restaurantes na Dinamarca.