O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, e líderes da União Europeia manifestaram forte crítica à decisão dos Estados Unidos de flexibilizar temporariamente as sanções contra o petróleo russo. A medida, anunciada na quinta-feira (12), autoriza a venda de carregamentos que já estavam embarcados em navios, visando aumentar a oferta global e conter a alta dos preços após o conflito com o Irã.

Em Paris, onde se reuniu com o presidente francês Emmanuel Macron, Zelensky afirmou que a flexibilização pode injetar cerca de US$ 10 bilhões na economia russa, recursos que, segundo ele, financiam a guerra. “Certamente não ajuda a alcançar a paz”, declarou. Macron, por sua vez, reconheceu que a isenção é “temporária e limitada”, mas reiterou a posição contrária ao fim das sanções.

António Costa, presidente do Conselho Europeu, criticou a decisão unilateral de Washington na rede social X, destacando que ela não foi discutida com os aliados e que a pressão econômica sobre a Rússia é crucial para forçar negociações de paz. “A decisão unilateral dos EUA… é muito preocupante, pois afeta a segurança europeia”, escreveu.

Entenda a medida dos EUA

O Departamento do Tesouro americano emitiu uma licença válida até 11 de abril para comercializar petróleo bruto e derivados russos embarcados antes de 12 de março. Estima-se que cerca de 100 milhões de barris, equivalentes a um dia da demanda mundial, sejam liberados. Kirill Dmitriev, enviado do Kremlin para assuntos econômicos, confirmou o volume.

Esta é a primeira flexibilização significativa das sanções energéticas impostas após a invasão russa da Ucrânia em 2022. Naquele ano, os EUA proibiram importações de petróleo russo, e a UE reduziu drasticamente suas compras.

O secretário do Tesouro, Scott Bessent, argumentou que a medida visa “ampliar o alcance global da oferta existente” e não geraria “benefício financeiro significativo” para Moscou, já que a maior parte dos impostos é cobrada na extração. Analistas, no entanto, veem um sinal político importante, especialmente após indicações do presidente Donald Trump sobre a necessidade de conter a inflação energética.

Contexto de tensão no mercado

O anúncio ocorre em um momento de extrema volatilidade. O preço do petróleo Brent superou US$ 100 por barril, atingindo patamares máximos em quase quatro anos, impulsionado pelos ataques no Oriente Médio e pela ameaça de interrupções no Estreito de Ormuz — rota vital para um quinto do petróleo global.

A Rússia, um dos maiores produtores mundiais, responde por cerca de 10% da oferta global. Após as sanções, redirecionou grande parte de suas exportações para a Índia e a China, muitas vezes com descontos. Parte do petróleo agora liberado estava parada em navios, em “armazenamento flutuante”, devido às restrições e à instabilidade do mercado.

Porta-vozes russos, como Dmitry Peskov, interpretaram a medida como um reconhecimento da importância do petróleo russo para a estabilidade do mercado. “Vemos ações dos EUA com o objetivo de tentar estabilizar os mercados de energia. Nesse aspecto, nossos interesses coincidem”, afirmou.

Impacto limitado e medidas adicionais

Especialistas avaliam que o alívio nos preços pode ser breve. Além da licença para o petróleo russo, os EUA anunciaram a liberação de 172 milhões de barris de sua reserva estratégica, integrando um esforço maior da Agência Internacional de Energia (AIE) para injetar até 400 milhões de barris no mercado.

Apesar das ações, a preocupação com interrupções prolongadas no fornecimento do Oriente Médio mantém os investidores em alerta. “As notícias estão chegando ao mercado como água de uma mangueira de incêndio”, comentou Mitch Reznick, da Federated Hermes, sobre a volatilidade.