Em acareação conduzida pela Polícia Federal no fim de dezembro, o empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, apresentaram versões contraditórias sobre a origem das carteiras de crédito vendidas pelo banco privado à instituição pública. Os vídeos do confronto foram divulgados pelo portal Poder360 e posteriormente tornados públicos pelo ministro Dias Toffoli, do STF.
A principal divergência reside na origem dos papéis. Vorcaro afirmou que o Master comunicou ao BRB apenas uma mudança no modelo de negócios, passando a vender carteiras originadas por terceiros de forma genérica, e que não sabia que a empresa Tirreno estava envolvida. “A Tirreno, nem eu mesmo sabia naquela ocasião, se eu não me engano, que existiu o nome Tirreno”, declarou.
Já Paulo Henrique Costa sustentou que a informação recebida pelo BRB era de que se tratava de carteiras originalmente originadas pelo próprio Master, que teriam sido vendidas a terceiros e depois recompradas e revendidas ao banco público. “O entendimento que eu coloquei é que eram carteiras originadas pelo Master, negociadas com terceiros, e que o Master estava recomprando e revendendo para a gente”, disse o ex-presidente.
Vorcaro rebateu essa versão, negando qualquer informação sobre recompra e reiterando que os créditos vinham de originadores que atuavam no mesmo ambiente do banco, mas não eram originados pela instituição.
O contexto das investigações
A Polícia Federal investiga operações suspeitas entre o Master e o BRB. A PF apura se houve omissão dos gestores do BRB e falhas de governança na aquisição de carteiras que representavam 30% de todos os ativos do banco público, o que poderia indicar um auxílio irregular ao Master em sua crise de liquidez.
Segundo a investigação, o Banco Master, sem fundos para honrar títulos com vencimento em 2025, comprou créditos da empresa Tirreno sem realizar pagamento e os revendeu ao BRB por cerca de R$ 12 bilhões.
Divergências sobre documentação e risco
Durante a acareação, também houve discordância sobre a documentação apresentada. Questionado se o material entregue ao BRB identificava o originador do crédito, Vorcaro afirmou não ter conhecimento detalhado e considerou a informação irrelevante para a análise de risco. “O risco final é o cliente na ponta. Quem originou não é relevante no processo de risco”, disse.
Paulo Henrique afirmou que a documentação normalmente incluía dados detalhados dos créditos e amostras de contratos, mas sem a identificação explícita do originador.
Posicionamentos e defesas
Em depoimento, Vorcaro afirmou que uma eventual compra do Master pelo BRB teria sido recomendada por auditorias e pelo Banco Central, sendo um “bom negócio para o sistema financeiro”. O BC, em nota posterior, ressaltou que cabe a cada instituição a responsabilidade exclusiva pela análise da qualidade dos créditos que adquire.
A defesa de Paulo Henrique Costa, em nota, afirmou que as aquisições começaram em julho de 2024 “no curso ordinário das atividades bancárias” e que o BRB “atuou de forma técnica e diligente” ao identificar ativos com padrão documental distinto, adotando medidas de contenção e comunicando o BC. A defesa sustenta que o depoimento do ex-presidente foi prestado com “clareza, consistência e compromisso com a verdade”.
O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central em novembro, após identificação de problemas de liquidez.