Quando Delcy Rodríguez entrou no Palácio Federal Legislativo para ser empossada presidente interina da Venezuela, seu vestido verde da grife italiana Chiara Boni La Petite Robe, avaliado em cerca de 550 euros, tornou-se um símbolo de uma realidade pouco conhecida: a existência de um resistente mercado de luxo no país, mergulhado em uma crise econômica de mais de uma década.
O valor do vestido, embora inferior a algumas especulações nas redes sociais, é astronômico para o venezuelano médio, cujo salário mínimo equivale a meros R$ 2,46. A peça, no entanto, é apenas a ponta do iceberg de uma economia paralela de alto padrão concentrada em áreas como o bairro Las Mercedes, em Caracas.
Nessa “ilha” de riqueza, é possível encontrar cinco distribuidores oficiais da Rolex, a Galeria Avanti com roupas de diversas marcas de luxo e, a poucas quadras, uma concessionária da Ferrari no térreo da Torre Jalisco. A região também é o epicentro de um “boom” gastronômico, com restaurantes de alta cozinha cujos cardápios são precificados em dólar.
A moeda americana passou a ter curso corrente a partir de 2020, beneficiando quem tem acesso a ela. Segundo o economista Luis Vicente León, cerca de 6% da população – aproximadamente 2 milhões de pessoas – pertencem às classes alta e média alta, um grupo que ainda “tem muito dinheiro”. Este mercado é impulsionado por uma elite que gasta por medo de ver recursos congelados, por empresários e políticos vinculados ao governo, alvos de sanções, e também por fortunas ligadas à corrupção.
A história da Ferrari em Caracas reflete os contrastes do país. Os carros da marca circulavam na capital desde os anos 1950, quando a cidade era comparada a Paris. Após décadas de intermitência devido a bloqueios e restrições, a concessionária reabriu em 2021. Enquanto isso, o modelo mais barato da marca custa mais de US$ 255 mil, um valor inalcançável para a esmagadora maioria da população que luta para fechar as contas do mês.
Este cenário de luxo exacerbado convive com a herança de desigualdade da “Venezuela Saudita”, cuja imensa riqueza petrolífera nunca foi democratizada, e com a profunda crise humanitária que se arrasta há anos, agravada por sanções internacionais e pela decadência da indústria nacional.