Enquanto na China o pênis bovino é considerado uma iguaria afrodisíaca milenar, no Brasil ele ganhou um destino bastante diferente: tornou-se um petisco natural e nutritivo para cães, além de ser um produto de exportação valioso para o agronegócio nacional.

Na medicina tradicional chinesa: um estimulante sexual

Na cultura chinesa, especialmente entre a população mais idosa, o consumo do pênis animal (conhecido como “vergalho” no Brasil) está enraizado na medicina tradicional. A crença, baseada no princípio de que “o semelhante cura o semelhante”, atribui ao órgão propriedades de prolongar a ereção e aumentar a libido masculina.

“Alimentos feitos de determinados órgãos podem tratar essa mesma parte no organismo de quem o consome”, explica Jiang Pu, consultora gastronômica do Ibrachina. Embora o de cabrito e porco sejam mais comuns, o pênis bovino é valorizado por sua capacidade de absorver bem temperos e caldos, sendo consumido cozido, ensopado, desidratado ou até em pó.

No Brasil: um superpetisco canino

A realidade brasileira para o vergalho é distinta. Aqui, ele é principalmente processado, desidratado e comercializado como um petisco natural para cães. As marcas destacam seus benefícios: ajuda a reduzir o tédio do animal ao estimar a roedura e contribui para a limpeza dos dentes.

“É um produto natural, rico em nutrientes para o animal e acabou sendo industrializado de uma maneira muito prática”, afirma Bruno de Jesus Andrade, do Instituto Mato-grossense da Carne (Imac). O mercado pet interno tem sido o grande destino, com preços que variam de R$ 12 a R$ 80 por unidade, dependendo do peso.

Um subproduto valioso da cadeia bovina

Aproveitar todas as partes do boi é uma máxima do setor. “Do boi a gente só não aproveita o berro”, brinca Marcos de Paula, especialista em exportação. Enquanto a crina das orelhas vira pincéis e os chifres viram cuias, o vergalho segue dois caminhos principais: a exportação para a Ásia e o mercado pet.

Com um abate de mais de 5 milhões de bovinos machos apenas no terceiro trimestre de 2025, o Brasil produz a mesma quantidade de vergalhos. A Sul Beef, frigorífico de Mato Grosso, revela que mais de 90% de suas vendas do produto vão para o mercado asiático, onde a tonelada pode valer até US$ 6 mil em Hong Kong – valor superior a outros miúdos como o omaso e o bucho.

No entanto, o consumo humano na China enfrenta mudanças geracionais. “Os jovens ocidentalizaram o hábito de consumo”, observa Andrade, num fenômeno similar ao declínio de pratos tradicionais com miúdos no Brasil, como a buchada.

Assim, o vergalho bovino encapsula uma fascinante dualidade global: um mesmo produto, carregado de tradição e simbolismo em uma cultura, transforma-se em um item funcional e moderno em outra, demonstrando a versatilidade e o aproveitamento total da pecuária brasileira.