O cenário comercial global está a passar por uma reconfiguração profunda. As políticas protecionistas e as ameaças de guerra comercial dos Estados Unidos, sob a administração de Donald Trump, geraram instabilidade e um senso de urgência entre as principais economias mundiais. Em resposta, a União Europeia (UE) está a acelerar a sua agenda diplomática para consolidar-se como um parceiro comercial confiável e uma alternativa estável aos EUA.

O desprezo demonstrado por Trump pelos parceiros europeus em fóruns internacionais, como o Fórum Econômico Mundial em Davos, funcionou como um alerta. A UE percebeu a necessidade de reforçar a sua imagem de bloco económico estável e previsível, contrapondo-se à volatilidade norte-americana. A estratégia passa por fechar acordos comerciais que estavam em negociação há anos, buscando diversificar parcerias e reduzir dependências.

Acordo UE-Mercosul: Um marco com obstáculos

Um dos movimentos mais simbólicos desta nova fase foi a assinatura, em janeiro, do acordo de livre comércio entre a UE e o Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai). Este pacto, que abrange um mercado de 700 milhões de pessoas, foi celebrado como histórico. “Estamos a enviar uma mensagem muito clara ao mundo de que os países do Mercosul e da União Europeia são a favor de tarifas baixas, de um comércio tranquilo”, afirmou o comissário de Comércio da UE, Maroš Šefčovič.

Contudo, a celebração foi de curta duração. Apenas quatro dias depois, o Parlamento Europeu suspendeu a ratificação do acordo, votando a favor de uma revisão aprofundada pelo Tribunal de Justiça da UE. Esta decisão, influenciada por pressões internas – sobretudo de países como a França, preocupados com a concorrência na agricultura –, representa um grande revés e cria o risco de os parceiros sul-americanos se retirarem em protesto.

Sucesso com a Índia: A “mãe de todos os acordos”

Mais bem-sucedida foi a cúpula UE-Índia, que culminou com a finalização de um acordo comercial histórico após quase duas décadas de negociações intermitentes. O pacto, que abrange um mercado de 2 mil milhões de pessoas e um quarto do PIB global, eliminará ou reduzirá tarifas em 96,6% das exportações de bens da UE para a Índia. Estima-se que poupará às empresas europeias cerca de 4 mil milhões de euros anuais em impostos e permitirá duplicar as exportações para o gigante asiático até 2032. O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, gabou-se de ser “a mãe de todos os acordos”.

Uma agenda comercial ambiciosa

Para além destes dois grandes acordos, a UE tem uma agenda comercial ambiciosa e diversificada:

  • Demonstrou interesse em aderir ao Acordo Abrangente e Progressivo para a Parceria Transpacífica (CPTPP).
  • Concluiu a atualização do acordo com o México e finalizou as negociações com a Indonésia.
  • Tem acordos em andamento com a Malásia, as Filipinas e os Emirados Árabes Unidos.
  • Prepara-se para a primeira revisão completa do Acordo de Comércio e Cooperação com o Reino Unido, que poderá melhorar uma relação ainda tensa pós-Brexit.

Peter Chase, investigador do German Marshall Fund em Bruxelas, sublinha que muitos países veem a UE como mais estável e confiável do que os EUA. “A UE é um bom parceiro de negociação, pois leva a sério os compromissos que assume”, afirma. No entanto, alerta que os longos prazos e as complexas regras de ratificação internas podem atrapalhar os seus objetivos.

O desafio maior: Revitalizar a OMC

Para analistas como Chase, há uma prioridade ainda mais urgente do que fechar novos acordos bilaterais: a revitalização da Organização Mundial do Comércio (OMC). Num contexto em que os EUA descumprem compromissos e a China resiste a cumprir promessas, o mundo precisa de restabelecer o Estado de Direito no comércio global. “Somente a UE pode ajudar a construir a coalizão de países necessária para isso”, defende Chase, destacando o papel único do bloco como mediador e defensor de um sistema multilateral de regras.

Enquanto Trump ameaça com tarifas e guerras comerciais, a União Europeia posiciona-se, assim, não apenas como um ator económico em busca de novos mercados, mas como uma potência normativa que tenta preservar as regras do jogo internacional. O sucesso desta estratégia, porém, dependerá da sua capacidade de superar divisões internas e de oferecer uma alternativa credível num mundo cada vez mais fragmentado.