O governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, intensificou a pressão sobre o Federal Reserve (Fed) ao ameaçar indiciar o presidente da instituição, Jerome Powell. A ação está relacionada a declarações feitas por Powell ao Congresso sobre um projeto de reforma de um edifício, que o próprio Powell classificou como um “pretexto” para ampliar a influência política sobre a definição da taxa de juros.

O episódio representa o mais recente capítulo de uma ofensiva de longa data do presidente para aumentar seu controle sobre o banco central. A ameaça teve efeito imediato no cenário político. O senador republicano Thom Tillis, integrante do Comitê Bancário do Senado, afirmou que a ação coloca em xeque a “independência e a credibilidade” do Departamento de Justiça. Tillis declarou que se oporá a qualquer nome indicado por Trump para o Fed, inclusive ao futuro sucessor de Powell, “até que essa questão legal seja totalmente esclarecida”.

Em jogo está a autonomia do Fed para conduzir a política monetária dos Estados Unidos sem interferência política indevida. Powell, nomeado para o comando do Fed pelo próprio Trump em 2018, encerra seu mandato em maio, mas não é obrigado a deixar o cargo. Analistas avaliam que a mais recente investida do governo aumenta as chances de ele permanecer na função como forma de resistência.

A ação ocorre cerca de duas semanas antes de a Suprema Corte analisar o esforço de Trump para demitir outra dirigente do Fed, a diretora Lisa Cook. Em Wall Street, a reação foi cautelosa. Desde a eleição de Trump para um segundo mandato, em novembro de 2024, investidores acompanham de perto o embate entre a Casa Branca e o banco central.

“As revelações desta noite representam uma escalada dramática nos esforços do governo para enfraquecer o Fed e podem desencadear uma série de consequências não intencionais, que vão diretamente contra os objetivos declarados do presidente Trump”, afirmou Karl Schamotta, estrategista-chefe de mercado da Corpay.

Ameaças e pressão sobre o banco central

A ofensiva foi revelada por Powell no fim da noite de domingo. Ele disse que o Fed recebeu, na semana passada, intimações do Departamento de Justiça relacionadas a comentários feitos ao Congresso sobre os custos excedentes de um projeto de reforma avaliado em US$ 2,5 bilhões no complexo da sede do banco central, em Washington.

“Na sexta-feira, o Departamento de Justiça notificou o Federal Reserve com intimações de um grande júri, ameaçando uma acusação criminal ligada ao meu depoimento ao Comitê Bancário do Senado em junho do ano passado”, afirmou Powell. “Tenho profundo respeito pelo Estado de Direito e pela responsabilidade em nossa democracia. Ninguém — certamente não o chair do Federal Reserve — está acima da lei.”

Ele acrescentou, no entanto, que a iniciativa deve ser analisada dentro de um contexto mais amplo de ameaças e pressão contínua do governo por juros mais baixos e, de forma geral, por maior influência sobre o Fed. “Essa nova ameaça não tem relação com meu depoimento em junho nem com a reforma dos prédios do Federal Reserve. Tampouco se trata do papel fiscalizador do Congresso. Esses são pretextos”, disse Powell. “A ameaça de acusações criminais decorre do fato de o Federal Reserve definir a taxa de juros com base no que considera melhor para o interesse público, e não de acordo com as preferências do presidente.”

Trump afirmou à NBC News, no domingo, que desconhecia as ações do Departamento de Justiça. “Não sei nada sobre isso, mas ele certamente não é muito bom no Fed e não é muito bom na construção de edifícios”, disse o presidente. Um porta-voz do Departamento de Justiça se recusou a comentar o caso, mas afirmou que “o procurador-geral instruiu os procuradores dos EUA a priorizar investigações sobre qualquer possível uso indevido de recursos do contribuinte”.

Fonte: G1