A revista The Economist emitiu um alerta contundente às economias desenvolvidas: observem o Brasil como um sinal de alerta antecipado. O termo “Brasilização” foi cunhado pela publicação para descrever um cenário onde juros persistentemente elevados tornam a dívida pública progressivamente incontrolável, um risco que, segundo a análise, já começa a se manifestar em países ricos.
O paradoxo brasileiro, conforme destacado, reside na combinação de indicadores aparentemente sólidos – como crescimento económico, um banco central independente e contas primárias quase equilibradas – com uma dinâmica de endividamento classificada como “explosiva”. Com a taxa básica de juros (Selic) em patamares elevados, o governo brasileiro destina cerca de 8% do seu PIB anualmente apenas para o serviço da dívida, pressionando as finanças públicas mesmo com um orçamento primário próximo do equilíbrio.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) projecta que a dívida pública bruta do Brasil atingirá 99% do PIB em 2030, um salto significativo face aos 62% registados em 2010. A revista aponta que o país enfrenta uma escolha “agonizante” entre uma austeridade profunda e uma espiral aterradora de juros e dívida, sendo que a primeira opção parece politicamente inviável no curto prazo.
Para a The Economist, as raízes do problema vão além da política fiscal momentânea. Uma combinação de factores institucionais e históricos explica por que o Brasil paga prémios de risco tão superiores aos das economias avançadas:
- Fragilidade Institucional: Instituições consideradas “frágeis”, que vacilaram durante eventos como a tentativa de golpe de 2022.
- Trauma Inflacionário: Um “pavio mais curto” para a inflação, herdado do trauma da hiperinflação das décadas de 1980 e 1990.
- Rigidez dos Gastos: Cerca de 10% do PIB é destinado a aposentadorias, com regras constitucionais que indexam benefícios ao salário mínimo, dificultando o controle orçamental e deslocando outros investimentos públicos.
O editorial serve como um espelho para o mundo desenvolvido. Os Estados Unidos, por exemplo, já exibem sintomas iniciais do processo: instituições sob pressão política, uma inflação mais difícil de domar no pós-pandemia e um cenário onde figuras políticas cogitam politizar órgãos independentes, como o Departamento de Justiça e o Federal Reserve.
Além disso, a pressão demográfica é um factor comum. O peso crescente das despesas com aposentadorias e saúde nos orçamentos dos países ricos ecoa o desafio estrutural brasileiro, sugerindo que o problema fiscal é global e de longo prazo.
A análise conclui que a crise fiscal brasileira não é meramente um resultado de “desperdícios” governamentais, mas de um sistema capturado por interesses poderosos e protegido por arcabouços legais rígidos. A falta de reformas estruturais, especialmente no sistema tributário – classificado como uma “bagunça” – mina a confiança do mercado e custa ao país até um ponto percentual de crescimento anual. Enquanto reformas pontuais, como o IVA dual, são reconhecidas, a mensagem é clara: sem mudanças profundas, o modelo permanece insustentável, servindo como um aviso prévio para outras nações.