O sofrimento e as inseguranças vividas por homens e meninos são um dos combustíveis que dão força à chamada “machosfera”, uma rede de grupos e páginas online com viés frequentemente misógino e violento. No entanto, esse sofrimento não pode, em hipótese alguma, servir de justificativa para discursos e ações que promovam ódio contra mulheres. Esta é a posição defendida por Gallianne Palayret, representante da ONU Mulheres no Brasil.

“O problema é que [a machosfera] promete uma cura, mas entrega isolamento, rigidez e hostilidade”, alerta Palayret, em entrevista. A tendência recente “caso ela diga não”, que incitava violência contra mulheres e virou alvo de investigação da Polícia Federal, exemplifica o perigo concreto dessas redes.

Para combater essa influência, a representante defende a criação urgente de espaços seguros e positivos onde meninos e homens possam compartilhar suas vulnerabilidades e buscar apoio, sem serem capturados por narrativas de ódio. “O que funciona melhor, das iniciativas que vemos no mundo, é oferecer suporte real. Redes de pertencimento, de saúde mental para meninos, de educação emocional, modelos de masculinidade que não dependem de controle sobre mulheres”, explica.

Ela enfatiza que investir no bem-estar masculino é um ganho coletivo: “Quando a gente melhora a vida dos meninos e dos homens, também melhora a segurança e a liberdade das mulheres”.

Palayret, que assumiu o cargo no início de 2026, aponta a necessidade de uma cooperação robusta entre governo, empresas de tecnologia e sociedade civil para conter a disseminação de conteúdos violentos online. Entre os desafios estão a facilidade de criação de novos perfis quando um é derrubado e os interesses financeiros das grandes plataformas, que muitas vezes se beneficiam do engajamento gerado por conteúdos extremos.

Como soluções, a advogada cita o fortalecimento de marcos legais contra a violência digital de gênero, a cobrança por maior transparência das plataformas e a educação digital crítica para jovens. Ela revela que está em discussão com o governo brasileiro uma adaptação da Lei Modelo Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência Digital de Gênero contra as Mulheres, instrumento lançado pela OEA em 2025.

O contexto é de extrema urgência: o Brasil registrou um recorde de 1.470 feminicídios em 2025, segundo dados do Ministério da Justiça, destacando a necessidade de ações concretas em todas as frentes, inclusive no ambiente digital.