“Voltamos para o jogo”. É assim que o presidente da Associação Brasileira da Indústria do Café Solúvel (Abics), Aguinaldo Lima, define o momento após a derrubada do chamado “tarifaço” dos EUA sobre quase metade dos produtos brasileiros. A decisão da Suprema Corte americana, na sexta-feira (20), fez com que as sobretaxas de 10% e 40% que ainda pesavam sobre setores como café solúvel, mel, frutas e pescados deixassem de valer a partir desta terça-feira (24).
Horas após a decisão judicial, o presidente americano Donald Trump anunciou uma tarifa global de 10% sobre importações, que posteriormente foi elevada para 15%, mas a que efetivamente entrou em vigor é de 10%. Para os setores que estavam sob uma taxação de 50%, a mudança representa um alívio e uma nova oportunidade de competir em condições mais igualitárias no mercado americano.
Mel: expectativa de retomada de contratos em março
O presidente da Associação Brasileira dos Exportadores de Mel (Abemel), Renato Azevedo, explica que a tarifa do produto brasileiro nos EUA estava maior em relação a outros competidores. “Agora é a mesma para o mel de todos os países. E se é para todo mundo, não tem problema, porque o nosso mel é muito competitivo”, afirma.
Azevedo conta que as empresas do setor já voltaram a conversar com os clientes americanos e que a expectativa é de que os contratos sejam retomados a partir de março. “O mel que o Brasil vende para os EUA é o orgânico. Não tem concorrente no mundo que consegue fornecer na escala que a gente fornece. Então, com a tarifa igualada para todos [países], ficamos em vantagem”, diz.
Após o tarifaço, o setor conseguiu exportar para os EUA o que já estava previsto em contratos anteriores, mas não fechou novos negócios. “Houve um grave problema de escoamento e desvalorização do mel no campo. A produção atrasou devido ao clima e, quando ficou pronta, encontrou o mercado travado pelo tarifaço”, destacou. “Muitos produtores operaram no prejuízo, tentando vender mel para o mercado interno, mas o Brasil não tem capacidade para absorver todo o volume”.
Pescados: previsão de recuperar mais de 5 mil empregos
O setor de pescados está otimista em deixar para trás a tarifa de 50% e encarar a nova taxa de 10%, segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Pescados (Abipesca). Os norte-americanos são um importante mercado para o segmento, tendo comprado quase metade de todo o pescado brasileiro vendido para o exterior em 2024.
A tarifa de 50% fez com que o setor perdesse contratos internacionais, diminuísse a produção e tivesse que cortar postos de trabalho. Com a tarifa de 10%, a perspectiva é bem mais favorável. “A expectativa da entidade é que a normalização parcial das condições comerciais permita a retomada do crescimento já ao longo de 2026, com a recuperação estimada de mais de 5 mil postos de trabalho e recomposição da capacidade produtiva do setor”, afirma a Abipesca.
Além disso, a nova tarifa de 10% deixará o pescado brasileiro, em especial a tilápia, mais competitivo no exterior. “O motivo é que nosso principal concorrente, a Colômbia, agora estará submetido à mesma taxa que o Brasil”, afirma Francisco Medeiros, presidente da Associação Brasileira da Piscicultura (Peixes Br).
Café solúvel: alívio após seis meses de perdas
Para a indústria de café solúvel, a derrubada do tarifaço de 50% representou um “alívio” após seis meses seguidos de perdas nas exportações. “Os Estados Unidos são o maior comprador do café solúvel brasileiro há mais de 60 anos. […] Nesse período de agosto a janeiro do tarifaço, o volume das exportações caiu 50% e as perdas aumentavam a cada mês”, afirma Aguinaldo Lima, da Abics.
Lima explica que, assim como para os exportadores de mel, a tarifa global de 10% imposta por Trump coloca o Brasil em pé de igualdade com outros competidores. “Nós voltamos para o jogo. É como se, agora, tivesse tarifa zero para todos. Com todo mundo no mesmo patamar, a gente entra com as mesmas condições de competitividade”, comenta.
“Durante o tarifaço, o volume dos contratos foi reduzido e alguns foram efetivamente rompidos. Como os importadores americanos não conseguiam arcar com os custos extras [da taxação do produto brasileiro], eles foram para concorrentes, como México, Colômbia, Vietnã, Equador e alguns países europeus”, diz Lima. “A expectativa é retomar contratos. As empresas brasileiras e os clientes americanos se conversam todos os dias, alguns mantêm laços de amizade, porque é uma relação comercial de longo prazo”.
Frutas: uva em compasso de espera
As frutas mais exportadas pelo Brasil para os EUA são a manga e a uva. A primeira já tinha ficado isenta no final do ano passado, mas deverá voltar a ter tarifa de 10%. Já a uva, que vinha sofrendo com uma sobretaxa de 50%, será beneficiada com a decisão da Suprema Corte dos EUA. A taxação, agora, cairá para 10%, o que também traz alívio para o setor.
Apesar disso, Eduardo Brandão, diretor-executivo da Associação Brasileira dos Produtores Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), afirma que não há notícias de retomada de contratos. “Tanto os produtores do Vale do São Francisco quanto os distribuidores e parceiros americanos estão aguardando a situação se definir melhor antes de retomar as conversas e contratos”, afirmou.
A uva foi o produto mais prejudicado pelo “tarifaço”, sofrendo uma redução de 73% no volume enviado para os EUA em 2025. “Alguns envios foram feitos porque estavam programados e a gente não queria perder o cliente. Então, mesmo perdendo, a gente mandou”, disse Brandão.