Imagine um local onde pode pegar num taco de baseball e destruir televisões, móveis ou louças antigas, sem qualquer culpa. Este é o conceito das “salas da fúria”, espaços que ganham popularidade como uma forma física de libertar emoções reprimidas e aliviar o stresse acumulado.

Deena, uma das utilizadoras, descreve a sua primeira experiência como “surpreendentemente controlada”. “Vivenciei a experiência mais como uma liberação física do que como uma explosão emocional”, conta. Após a sessão, sentiu-se “muito mais leve e tranquila”, comparando a sensação a “pressionar um botão de reset”.

Shuka Piryaee partilha uma opinião semelhante: “Foi uma satisfação muito maior do que eu esperava. Senti algo estranho e libertador ao destroçar coisas sem precisar tomar cuidado.”

Uma Tendência com Raízes no Japão e nos EUA

Acredita-se que o conceito tenha surgido no Japão no final dos anos 2000, mas Donna Alexander afirma ter criado um espaço semelhante na sua garagem no Texas, nos Estados Unidos, na mesma época. No Reino Unido, estes locais ainda são uma novidade, mas a procura, especialmente por parte de mulheres, está a crescer.

Kate Cutler, fundadora de uma sala em East Sussex, Inglaterra, confirma a tendência. O seu espaço está “ficando cada vez mais concorrido” entre clientes do sexo feminino. Cutler teve a ideia quando a sua filha, que lutava contra um cancro, incluiu a visita a uma sala destas na sua lista de desejos.

Porque é que as Mulheres São as Principais Clientes?

Jennifer Cox, psicoterapeuta, explica que as mulheres são muitas vezes “condicionadas” a reprimir sentimentos de “frustração, ira, agressão e raiva”. Entre as exigências do trabalho, da família e da vida pessoal, estas emoções podem acumular-se. “Quando reprimimos a raiva, ela se manifesta no nosso corpo de diversas formas, como ansiedade, depressão, TOC, enxaqueca ou problemas estomacais”, alerta Cox.

A terapeuta Shelly Dar reforça esta ideia: “Grande parte do problema para as mulheres hoje em dia é que não queremos ser julgadas. Por isso, precisamos reprimir todas estas emoções, interpretando o papel da boa menina… Fomos educadas para sermos amáveis.”

Para Dar, espaços como as salas da fúria oferecem um alívio instantâneo e um local seguro para expressar sentimentos confusos sem julgamento. “A raiva é saudável”, defende. “O sentimento tem má reputação porque só observamos a explosão, não o acúmulo.”

Uma Solução Física para um Problema Emocional

As salas não são apenas sobre destruição. Para muitos utilizadores, trata-se de uma catarse física que permite uma libertação mental. Deena, que trabalha num ambiente acelerado e de alta responsabilidade, vê nestas visitas uma ferramenta para lidar melhor com o stresse. “Quando me sentir muito estressada, voltarei a visitar uma sala”, afirma.

Para quem não tem acesso a um destes espaços comerciais, a psicoterapeuta Jennifer Cox sugere criar uma “minissala da fúria em casa”, utilizando almofadas e travesseiros empilhados para libertar parte da raiva e do stresse de forma segura.

Mais do que uma moda passageira, as salas da fúria apresentam-se como um reflexo da necessidade crescente de encontrar válvulas de escape saudáveis para as pressões da vida moderna, oferecendo um momento de libertação controlada num mundo que muitas vezes exige que nos contenhamos.