Giuliana Passarelli, de 31 anos, viralizou no TikTok ao mostrar os bastidores do seu trabalho como assistente pessoal de um empresário milionário. Ela se autodenomina uma “babá de milionário”, um termo que nasceu de uma piada interna mas que acabou por definir uma profissão que mistura gestão total da vida de alguém com experiências de luxo improváveis.

“Sabe aquele ditado que diz que todo mundo tem as mesmas 24 horas? É mentira”, decreta Giuliana. “Ele [o chefe] também tem as minhas 24 horas.” A sua função é resolver tudo o que o patrão não quer fazer, desde escolher um terno de 5 mil euros até organizar a festa de aniversário ou comprar o material escolar do filho.

A rotina é imprevisível. Num dia pode ser levar o cachorro ao veterinário, noutro pode ser viajar às pressas para a França apenas para buscar uma Ferrari de coleção. “Tive que arrumar a mala do dia para a noite… Chegamos, fomos a uma cidade vizinha a Paris e tive que resolver toda a parte burocrática de como se traz um carro para o Brasil”, conta.

O lado mais excêntrico do trabalho surgiu quando o chefe, após ler sobre a moda das minigalinhas, decidiu aderir. Giuliana virou, literalmente, babá de duas galinhas anãs da raça serama, que custaram R$ 3 mil cada. As aves, com cerca de 15 cm de altura, hoje vivem no sítio de uma funcionária, mas Giuliana continua a receber fotos e atualizações para o patrão.

Para Cristina Proença, professora da ESPM, esta profissão é um desdobramento moderno dos empregados domésticos tradicionais dos super-ricos, como governantas e mordomos. A concentração de riqueza no topo impulsiona a demanda por serviços ultraespecializados. O mercado de luxo no Brasil, que faturou R$ 74 bilhões em 2022, deve alcançar R$ 150 bilhões até 2030.

O bem mais valioso que estes assistentes proporcionam não é material, mas o tempo. “Quando você fala da contratação desse staff, você está falando realmente de ganhar tempo comprando o tempo de outras pessoas”, explica Proença. “Isso até é um símbolo de status: você ter tempo.”

João Victor Marques, 29 anos, de Goiânia, vive uma realidade semelhante. Já trabalhou para um empresário inglês em Mônaco, Dubai, Londres e Zurique. Uma das experiências mais marcantes foi jantar num iate de Leonardo DiCaprio ancorado em Mónaco. Hoje, é assessor pessoal de uma empresária local, funcionando como uma extensão e porta-voz dela.

“A gente tem que deixar a conta no banco com limite máximo de Pix, sem horário. Já fiz Pix monstruosos, de R$ 200 mil”, revela João Victor, que vê na profissão uma oportunidade de ascensão social e acesso a um mundo glamouroso.

Giuliana, por sua vez, valoriza a liberdade e a flexibilidade. “Para mim, qualidade de vida de poder morar onde quero, ter os meus horários… É imbatível a qualquer salário.” No entanto, admite que a convivência diária com gastos exorbitantes pode ser chocante num país com tanta desigualdade como o Brasil.

O setor está a profissionalizar-se. Agências como a Lu Xavier, em São Paulo, atuam como “boutiques” especializadas no recrutamento de funcionários domésticos para residências de alto padrão. O processo inclui análise de antecedentes criminais, referências e histórico financeiro.

Luciana Xavier, fundadora da agência, sublinha que a discrição é indispensável e que o rótulo de “babá de milionário” não reflete a rotina da maioria, que é feita de gestão, responsabilidade e organização. A remuneração média varia entre R$ 15 mil e R$ 30 mil, dependendo das atribuições.

Além de jogo de cintura e organização, habilidades como inglês fluente e um vasto repertório cultural são essenciais. “Para lidar com esse público, que é muito exigente, é necessário saber conversar com ele”, afirma Cristina Proença. O valor do assistente está também na rede de contatos que constrói – do gerente da aviação executiva à florista exclusiva –, um capital social considerado “ouro puro” nesta profissão.