O Novo Mapa Industrial do Brasil
Uma transformação estrutural está redesenhando o panorama econômico brasileiro. Dados oficiais revelam uma inversão histórica: em 2022, 54,4% dos empregos industriais já estavam localizados no interior do país, superando pela primeira vez as capitais e regiões metropolitanas. Este movimento, que ganhou força decisiva em 2014, representa uma mudança de paradigma na localização da produção nacional.
Histórias que Ilustram a Tendência
Letícia Martins, 26 anos, engenheira de produção formada pela UFV, personifica esta transição. Após imaginar que seu futuro profissional estaria necessariamente em um grande centro urbano, ela retornou à sua cidade natal, Passos (MG), para trabalhar na nova fábrica da Heineken. “Surgiu a oportunidade de voltar para casa, e eu agarrei”, relata, conciliando carreira em multinacional com proximidade familiar.
Em Iracemápolis (SP), Gabriele de Oliveira Pereira, 27 anos, experimentou transformação similar. De estoquista em supermercado com jornada 6×1, tornou-se operadora de produção na montadora chinesa GWM. “Meu salário dobrou”, comemora. “Agora consigo levar minha filha para passear, coisa que antes não podia proporcionar.”
Os Motores da Interiorização
Segundo estudo do Núcleo de Economia Regional e Urbana da USP (Nereus), esta migração responde a pressões econômicas concretas:
- Custos Operacionais: Terrenos e galpões mais caros, mão de obra mais custosa, congestionamentos e sindicalização mais forte nas metrópoles
- Guerra Fiscal: Municípios oferecem incentivos tributários – como a isenção de R$ 90 milhões em tributos concedida a Heineken em Passos
- Logística Moderna: Avanços em transporte e comunicação reduzem vantagens da localização metropolitana
Desindustrialização e Neoindustrialização
Paradoxalmente, esta interiorização ocorre durante processo mais amplo de desindustrialização nacional. A participação da indústria de transformação no emprego total caiu de 27,7% (1986) para 15,1% (2022). Três regiões metropolitanas – São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre – foram responsáveis por 70% desta redução.
“Este movimento de interiorização permitiu que a indústria ganhasse fôlego para competir com importados”, analisa Paulo Morceiro, economista da USP. “Mas não é suficiente para estancar a desindustrialização, apenas para diminuir sua intensidade.”
Impactos Regionais Desiguais
Enquanto Estados como São Paulo, Rio e Rio Grande do Sul concentram 92,9% da desindustrialização, regiões do Centro-Oeste apresentam leve industrialização vinculada ao agronegócio. Esta dinâmica cria novo mapa produtivo, com polos emergentes no interior e tradicionais perdem protagonismo.
Desafios para o Futuro
Especialistas apontam caminhos para fortalecer esta nova industrialização:
- Redução do Custo de Capital: Juros elevados (Selic a 15%) dificultam investimentos em modernização
- Aprimoramento Logístico: Necessidade de melhorias em transporte, energia e conexão entre polos industriais
- Adensamento Produtivo: Desenvolvimento de cadeias complementares em torno dos polos existentes
Conclusão: Uma Transformação em Curso
A migração industrial para o interior representa adaptação do setor produtivo às novas realidades econômicas. Embora não reverta completamente a desindustrialização, cria oportunidades de desenvolvimento regional e qualidade de vida para profissionais como Letícia e Gabriele. O desafio nacional será transformar esta tendência espontânea em política industrial estruturada, capaz de gerar crescimento sustentável e distribuição mais equilibrada da riqueza pelo território brasileiro.