A primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, tem gerado preocupação ao adotar e promover um estilo de vida de trabalho extremo, que muitos temem poder agravar a já crítica cultura de excesso de trabalho no país.
Takaichi, que admira a ex-premiê britânica Margaret Thatcher, declarou publicamente que pretende descartar o equilíbrio entre vida pessoal e profissional. “Vou trabalhar, trabalhar, trabalhar e trabalhar”, afirmou após sua nomeação em outubro. Ela mantém a palavra, realizando reuniões às 3h da manhã e dormindo, por sua própria admissão, entre duas e quatro horas por noite.
Além de seu exemplo pessoal, a premiê solicitou ao ministro do Trabalho que analise a flexibilização das restrições de horas extras, atualmente limitadas a 720 horas por ano. O objetivo declarado é incentivar o crescimento econômico.
Essa postura soou como um alarme em um país que há décadas luta contra o karoshi – a morte por excesso de trabalho. Tomoko Yoshino, líder do maior sindicato do Japão, o Rengo, alertou que o limite atual já está próximo do patamar que aumenta o risco do fenômeno. Em 2024, o país registrou um recorde de 1.304 casos de mortes e problemas de saúde relacionados ao trabalho excessivo.
O Conselho Nacional de Defesa das Vítimas de Karoshi emitiu uma declaração pedindo que Takaichi suspenda os esforços para reverter os recentes progressos e pare com os comentários “exaltados” sobre trabalho. A preocupação é compartilhada por membros de seu próprio governo, como o ministro da Saúde, Takamaro Fukuoka.
Especialistas em direitos humanos, como Teppei Kasai, da Human Rights Watch, destacam que o problema vai além da produtividade, sendo uma questão de direitos humanos fundamentais. Ele argumenta que a cultura corporativa japonesa tende a valorizar excessivamente a presença física em detrimento da produtividade real, pressionando os trabalhadores a comparecer mesmo doentes.
Nas redes sociais, a realidade das longas jornadas ganha rosto. Criadores de conteúdo como Hiro, do canal “Typical Salaryman”, documentam a exaustão e a solidão de semanas de trabalho que ultrapassam 65 horas. Já Issei, de 27 anos, que pediu anonimato, relata ter passado por empresas com culturas “desafiadoras” (conhecidas como Black kigyō) que o deixaram deprimido e endividado.
Embora existam vozes, como a do professor Makoto Watanabe, que defendem o direito individual de trabalhar mais horas para aumentar a renda, o consenso entre sindicatos e especialistas em saúde ocupacional é de que a flexibilização das leis pode abrir espaço para abusos e retroceder nos avanços conquistados para combater o karoshi e promover um estilo de vida mais saudável.