A Venezuela detém as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, um ativo estratégico que se tornou o centro de uma complexa disputa geopolítica e econômica. Este artigo analisa o paradoxo de um país com uma riqueza natural colossal, mas cuja indústria petrolífera enfrenta um declínio estrutural profundo.
A dimensão do mercado de petróleo venezuelano
Segundo a Energy Information Administration (EIA) dos Estados Unidos, a Venezuela concentra cerca de 303 bilhões de barris de reservas comprovadas de petróleo, o equivalente a aproximadamente 17% do total mundial. Este volume coloca o país à frente de gigantes como Arábia Saudita e Irã. Contudo, boa parte deste petróleo é do tipo extrapesado, cuja extração é complexa e exige tecnologia avançada e investimentos maciços.
Na prática, este potencial permanece largamente subaproveitado. Dados do Statistical Review of World Energy mostram um declínio vertiginoso na produção: de um pico de 3,7 milhões de barris por dia (bpd) em 1970, caiu para um mínimo de 665 mil bpd em 2021. Em 2024, registou uma ligeira recuperação para cerca de 1 milhão de bpd, representando menos de 1% da produção global. A infraestrutura precária e as sanções internacionais são apontadas como causas principais deste colapso.
Dependência histórica e crise económica
O petróleo moldou a economia venezuelana ao longo do século XX. Após a nacionalização da indústria em 1976 e a criação da estatal PDVSA, o sector tornou-se um monopólio estatal e a principal fonte de receitas. Entre 1998 e 2019, mais de 90% das exportações do país foram de petróleo.
Esta dependência extrema revelou-se catastrófica quando a produção entrou em colapso. A queda acentuada nas receitas petrolíferas, agravada por sanções internacionais, contribuiu diretamente para uma hiperinflação histórica. Em 2019, a inflação anual atingiu 344.510%, segundo o Banco Central da Venezuela, destruindo o poder de compra da população.
Sanções, PDVSA e a geopolítica do petróleo
As sanções lideradas pelos Estados Unidos, endurecidas a partir de 2019, redesenharam o panorama. Os EUA, outrora principais compradores do petróleo venezuelano, praticamente cessaram as importações. Em resposta, a Venezuela direcionou as suas exportações para a China, através de acordos de petróleo por empréstimos, intensificando a disputa geopolítica na região.
A PDVSA, outrora uma empresa robusta, viu o seu orçamento e capacidade de investimento severamente afetados. A Chevron é atualmente a única empresa norte-americana com uma autorização especial para operar no país. Um estudo do Instituto Tricontinental, citando dados da Global South Insights, estima que as sanções causaram perdas de cerca de 226 mil milhões de dólares em receitas petrolíferas para a Venezuela entre 2017 e 2024 – um valor superior ao PIB atual do país.
Impacto atual e perspectivas futuras
Apesar das dificuldades, o petróleo permanece como pilar económico. Em 2024, a PDVSA faturou cerca de 17,5 mil milhões de dólares com exportações, respondendo por cerca de 58% das receitas da estatal. Desse montante, 10,41 mil milhões de dólares foram destinados ao Tesouro venezuelano em impostos e royalties, segundo a Reuters.
Os dados mais recentes do Banco Central da Venezuela (BCV) mostram um crescimento económico impulsionado pelo sector dos hidrocarbonetos. No terceiro trimestre de 2025, o PIB cresceu 8,71% face ao período homólogo de 2024, com a atividade petrolífera a avançar 16,12%.
Contudo, esta aparente recuperação não resolve a vulnerabilidade de base. A Venezuela, dona de uma das maiores riquezas naturais do planeta, permanece com uma das menores economias da América Latina, a sua trajetória condicionada pela flutuação do preço do petróleo, pela degradação da sua infraestrutura industrial e pelas tensões geopolíticas globais.
Fonte: Reuters, via G1.