A Polícia Federal (PF) abriu inquérito para investigar a divulgação nas redes sociais da trend “Caso ela diga não”, que incita violência contra mulheres. Os vídeos, que viralizaram no TikTok, mostram jovens ensinando como reagir diante de uma rejeição feminina, simulando agressões a manequins que representariam mulheres.
Segundo a PF, a remoção dos conteúdos já foi solicitada à plataforma. O TikTok afirmou que os conteúdos violam suas regras e foram removidos após identificação.
As publicações surgiram dias após outro caso gerar revolta no país: uma adolescente de 17 anos denunciou ter sido vítima de estupro coletivo no Rio de Janeiro. O ataque, classificado pela polícia como “emboscada planejada”, ocorreu em 31 de janeiro em Copacabana.
De acordo com a denúncia, a adolescente foi convidada pelo ex-namorado para ir à casa de um amigo. Durante relação sexual consensual, outros quatro rapazes entraram no quarto e cometeram violências sexuais e físicas contra ela.
Imagens exibidas pelo Fantástico mostraram os cinco jovens acusados comemorando e debochando da vítima. A Justiça decretou prisão preventiva de quatro jovens, e um menor foi apreendido. Os réus negam o crime.
Ao se apresentar na delegacia, um dos investigados, Vitor Hugo Oliveira Simonin, de 18 anos, usava camisa com a frase “regret nothing” (não me arrependo de nada), expressão associada a grupos da “machosfera” – comunidades online que propagam misoginia.
Nos últimos anos, essas comunidades ganharam visibilidade ao promover narrativas que culpabilizam mulheres por relações afetivas frustradas, defendem hierarquias de gênero e, em alguns casos, incentivam comportamentos violentos.
Esse fenômeno preocupa pesquisadores, que identificam reversão nas atitudes de homens mais jovens em relação às mulheres – e apontam redes sociais como motor dessa mudança.
Segundo estudo global da Ipsos e do King’s College de Londres com 23 mil pessoas de 29 países, homens da geração Z (nascidos entre 1996 e 2012) têm mais propensão que baby boomers (1945-1965) a acreditar que esposas devem “obedecer” seus maridos.
Até 31% dos homens adolescentes e na casa dos 20 anos acreditam nisso, contra 13% dos homens com 60 anos ou mais.
Em entrevista à BBC News, a professora Heejung Chung, do King’s College de Londres, disse que redes sociais desempenham “enorme papel” na mudança de opinião, pois influenciadores e políticos “exploram reclamações das pessoas” e sugerem que homens precisam reafirmar dominância.
Penny East, executiva-chefe da Sociedade Fawcett (Reino Unido), concorda: “Os níveis chocantes de misoginia, online e offline, a que meninos são expostos contribuem para essas atitudes. É quase surpreendente que não assumam esse comportamento misógino, considerando o conteúdo oferecido diariamente”.
O número de mulheres jovens que acreditam que esposas devem obedecer maridos foi menor que o de homens na pesquisa, mas ainda mais alto que o de homens baby boomers.
East aponta redes sociais também para esse fenômeno: “Da mesma forma que homens jovens são ensinados que caminho para felicidade é dinheiro, carros, garotas e força física, existem mulheres sendo ensinadas que caminho é ideia tradicional de feminilidade”.
“Parece simplesmente que tudo está indo na direção errada”, lamenta East. “E está afetando jovens, homens e mulheres.”
A pesquisa também mostra que, globalmente, 44% das pessoas concordam que “fomos longe demais ao promover igualdade das mulheres e passamos a discriminar homens”.
Segundo a UN Women, nenhum país atingiu plena igualdade legal para mulheres e meninas. Mulheres detêm globalmente 64% dos direitos legais dos homens, “o que as expõe à discriminação, violência e exclusão em todas as fases da vida”.
East afirma que existe “fenômeno crescente na percepção do público, de que igualdade das mulheres já fez o necessário”, postura que “ignora estatísticas nacionais que demonstram que mulheres ainda sofrem abusos em suas casas, continuam sendo importunadas sexualmente nas ruas e ainda ganham menos”.
Em meio ao debate sobre misoginia e violência contra mulheres nas redes sociais, parlamentares apresentam propostas no Congresso Nacional para ampliar instrumentos legais de enfrentamento.
Na Câmara, deputada Sâmia Bomfim (PSOL-SP) é autora de projeto que propõe criminalização da misoginia e disseminação de conteúdos associados à cultura “red pill” na internet.
No Senado, Comissão de Direitos Humanos deve analisar projeto que inclui misoginia na Lei do Racismo e tipifica prática como crime de discriminação. A proposta, da senadora Ana Paula Lobato (PSB-MA), define misoginia como atos que manifestem ódio ou aversão às mulheres com base na ideia de supremacia masculina.