As imagens de tratores nas ruas e protestos intensos na Europa vão muito além da simples oposição ao acordo comercial com o Mercosul. Especialistas apontam que o tratado, assinado recentemente, é apenas o estopim de uma insatisfação profunda e acumulada entre os agricultores europeus, que enfrentam um conjunto complexo de desafios.
Para economistas, a raiz do descontentamento está nas políticas ambientais cada vez mais rigorosas adotadas pela União Europeia. Regras como a Lei de Restauração Ambiental, que exige a recuperação de ecossistemas, e a pressão para reduzir o uso de agrotóxicos e emissões de carbono têm elevado os custos de produção de forma significativa. “Está ficando difícil ganhar dinheiro”, resume a percepção dos produtores, segundo analistas.
Neste contexto, o acordo com o Mercosul é visto como um agravante. Os agricultores europeus temem a concorrência com países como o Brasil, que possuem alta produtividade e custos operacionais mais baixos. No entanto, o tratado prevê mecanismos de proteção robustos para o setor europeu, como cotas de importação para produtos sensíveis (como carnes) e cláusulas de salvaguarda que permitem suspender benefícios tarifários se houver um aumento súbito nas importações.
Além das questões comerciais e ambientais, fatores geopolíticos, como a guerra na Ucrânia, impactaram o preço de insumos como fertilizantes, aumentando a pressão sobre os produtores. A agricultura na Europa, especialmente em países como a França, carrega um peso cultural e político imenso, sendo vista como parte do patrimônio a ser preservado. Isso explica a força dos protestos e a histórica proteção concedida ao setor através de subsídios e políticas de preços mínimos.
Portanto, enquanto o acordo UE-Mercosul catalisou a revolta, as verdadeiras causas dos protestos são multifacetadas: um choque entre exigências ambientais crescentes, custos de produção em alta, concorrência global e a defesa de um modo de vida tradicional. O tratado é uma peça, mas não a única, em um quebra-cabeça de insatisfação que desafia os governos europeus.