O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil registrou crescimento de 2,3% em 2025, marcando o quinto ano consecutivo de expansão. No entanto, para grande parte da população, a realidade do dia a dia continua a ser de aperto no orçamento e perda de poder de compra, criando um descompasso entre os indicadores macroeconômicos e a percepção das famílias.

“O dinheiro aumenta, mas não dá para comprar nada”, resume a aposentada Maria Madalena, que precisou trocar a carne bovina por frango e optar por laticínios mais baratos. A sensação de desvalorização da renda é compartilhada por muitos, mesmo em um cenário de taxa de desemprego recorde (5,6%) e rendimento médio real em alta (R$ 3.560).

Consumo das famílias perde fôlego

O principal termômetro desse mal-estar é o consumo das famílias, que representa mais de 60% da atividade econômica. Embora tenha crescido 1,3% em 2025, o avanço foi bem inferior ao registrado no ano anterior (5,1%) e ficou estagnado no último trimestre. Para Juliana Trece, coordenadora do Núcleo de Contas Nacionais do FGV Ibre, os dados revelam um descompasso entre renda e gastos.

“Em anos anteriores, houve liberações de recursos extraordinários, como saques do FGTS, que ajudaram a estimular as compras. Quase não tivemos esse tipo de impulso em 2025”, explica. Assim, as compras passaram a depender quase exclusivamente da renda do trabalho, que foi corroída pela inflação.

Inflação e juros altos como freios

Apesar de ter fechado 2025 em 4,26% – o melhor resultado desde 2018 –, a inflação oficial (IPCA) continuou a corroer o poder de compra, especialmente entre as famílias de menor renda. Itens essenciais como alimentos, energia e saúde pesaram de forma mais intensa no orçamento.

Para conter a alta de preços, o Banco Central elevou a taxa básica de juros (Selic) em 2,25 pontos percentuais ao longo do ano, chegando a 15% no fim de 2025 – o maior patamar em quase duas décadas. Segundo a economista Silvia Matos, também do FGV Ibre, a combinação de inflação e juros altos funcionou como um “freio” na economia, afetando setores dependentes de crédito, como bens duráveis (carros, eletrodomésticos) e construção civil.

Endividamento em alta e juros “escorchantes”

O endividamento das famílias também limitou o consumo. Dados de dezembro de 2025 indicam que 73,5 milhões de consumidores estavam negativados, quase 45% da população adulta. O cartão de crédito segue como um dos principais vilões, com taxas consideradas abusivas.

“Os juros já estão altos, mas os do cartão de crédito são ainda maiores. É absurdo não haver uma intervenção estatal mais efetiva sobre isso”, critica o procurador Jayme Asfora, que chegou a quebrar seus cartões para se proteger. A cautela se estende mesmo a quem teve aumento de renda, com planejamento rigoroso de gastos e redução de despesas não prioritárias.

Crescimento desigual e bases frágeis

A economia cresceu, mas de forma desigual. Enquanto setores como tecnologia e finanças contrataram mais, áreas dependentes de crédito enfrentaram dificuldades. O baixo desemprego também mascara realidades distintas, com parte da ocupação vinculada ao envelhecimento da população e à expansão do trabalho por aplicativos.

O crescimento de 2025 foi sustentado principalmente pelas exportações, impulsionadas pela agropecuária (alta de mais de 10%) e petróleo. “Foi um crescimento muito voltado para exportações”, explica Juliana Trece. No entanto, as bases são consideradas frágeis: os investimentos avançaram em parte por compras pontuais (como plataformas de petróleo), e a produtividade da economia caiu.

Perspectivas para 2026: mais incertezas

Para 2026, a expectativa é de desaceleração, com crescimento similar ou até menor que o de 2025. O setor agropecuário, que teve desempenho excepcional, não deve repetir o mesmo ritmo. O ano eleitoral amplia as incertezas sobre as contas públicas e pode levar a adiamentos de investimentos.

Mesmo que o Banco Central inicie um ciclo de redução de juros, os efeitos no crédito e na economia real não serão imediatos. “Leva tempo até que a queda dos juros chegue ao crédito, reduza o custo dos financiamentos e estimule novos projetos”, destaca Silvia Matos. Enquanto isso, o “enigma” entre números positivos e aperto no cotidiano deve continuar desafiando brasileiros e economistas.