Um artigo publicado pela Citrini Research, empresa do investidor James van Gleek, desencadeou uma onda de volatilidade nos mercados financeiros ao descrever um cenário hipotético sombrio para a economia global, impulsionado pela inteligência artificial.
O texto, apresentado como um “exercício mental”, simula um relatório datado de 30 de junho de 2028. Nele, a IA teria provocado um desemprego de 10,2% e uma queda de quase 40% no índice S&P 500, transformando a euforia inicial com a tecnologia em uma crise profunda em apenas dois anos.
O Conceito de “PIB Fantasma”
O núcleo do argumento é a ideia de um “PIB Fantasma”: ganhos massivos de produtividade gerados pela IA, que não se traduzem em bem-estar econômico real. A automação de funções de colarinho branco — administração, gestão, software — levaria a demissões em massa. Os trabalhadores substituídos, forçados a buscar empregos com salários menores, veriam seu poder de compra despencar. Assim, a riqueza produzida ficaria retida, sem circular na economia de consumo.
“Quando começaram a surgir fissuras na economia de consumo, os especialistas econômicos popularizaram a expressão ‘PIB Fantasma’: produção que aparece nas contas nacionais, mas nunca circula pela economia real”, descreve o texto fictício.
Uma Espiral de Substituição
O artigo prevê um ciclo vicioso: os avanços em IA levam a demissões, que reduzem o consumo, o que pressiona as margens das empresas, levando a mais investimentos em automação e a novos avanços em IA. Setores como software, serviços legais, contabilidade e até imobiliário — onde relações humanas antes eram valorizadas — entrariam em colapso à medida que agentes de IA replicassem conhecimento especializado instantaneamente.
O texto argumenta que superestimamos o valor das “relações humanas” no mercado, e que muito disso era, na verdade, “atrito” disfarçado.
Reações e Ceticismo
Apesar do impacto imediato nas ações de empresas como IBM, Datadog e grandes bancos, muitos analistas receberam o cenário com ceticismo. Robert Armstrong, do Financial Times, sugeriu que a reação do mercado revelava mais uma sensibilidade extrema e ansiedade do que uma crença genuína nas previsões.
Críticos apontam que o cenário ignora a adaptabilidade humana e a resposta institucional. Argumentam que ganhos de produtividade historicamente realocam valor, não o destroem. A redução de custos pode baratear bens e serviços, aumentando o poder de compra real. Nick Lichtenberg, da Fortune, e outros especialistas destacam que a IA ainda depende de contexto humano dinâmico e que muitas tarefas permanecem fora de seu alcance atual.
Um Alerta para o Futuro
Ao final, os autores da Citrini lembram que se trata de um exercício de reflexão, não de uma previsão. O objetivo, afirmam, é modelar um risco pouco explorado. A mensagem subjacente é um alerta: como investidores e como sociedade, ainda há tempo para avaliar a resiliência de nossos modelos econômicos e portfólios diante de uma aceleração tecnológica que desafia premissas tradicionais.