Após meses de movimentações militares no Caribe, os Estados Unidos intensificaram a pressão sobre a Venezuela, culminando em ações que incluem sanções econômicas, bloqueio naval e, segundo relatos, ataques em Caracas. A justificativa oficial de Washington é o combate ao narcotráfico e a instabilidade regional provocada pelo que classifica como um regime corrupto liderado por Nicolás Maduro.

Maduro, por sua vez, denuncia as ações como um golpe contra a soberania venezuelana e acusa os EUA de usar o pretexto das drogas para forçar uma mudança de governo. Especialistas, no entanto, apontam que os interesses norte-americanos vão muito além da segurança, envolvendo fatores econômicos e geopolíticos estratégicos.

O interesse pelo petróleo venezuelano

A Venezuela detém as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, aproximadamente 303 bilhões de barris. Apesar do potencial, a produção é limitada por infraestrutura precária e sanções internacionais. O petróleo pesado venezuelano é considerado ideal para as refinarias da Costa do Golfo dos EUA.

Analistas sugerem que o interesse de Donald Trump está em acessar esse recurso para reduzir os preços internos de combustíveis e pressionar a economia venezuelana, que depende fortemente das exportações de petróleo. Reportagens indicam que Washington já negocia secretamente com Caracas sobre o tema, enquanto medidas de bloqueio começam a causar problemas logísticos, como a falta de capacidade de armazenamento no país.

A disputa geopolítica com a China

Após as sanções impostas pelos EUA em 2019, a China tornou-se o principal parceiro económico da Venezuela, através de acordos de empréstimos garantidos por petróleo. Estima-se que Pequim tenha emprestado cerca de 50 mil milhões de dólares na última década, recebendo 68% das exportações de petróleo bruto venezuelano em 2023.

Esta relação é vista como uma ameaça estratégica pelos EUA, que buscam conter a influência chinesa na América Latina. A ofensiva contra Maduro insere-se numa estratégia mais ampla de reforço da presença norte-americana na região, explicando também a aproximação de Trump com países como Brasil e Argentina, ambos com significativo potencial petrolífero.

A reativação da Doutrina Monroe

A nova estratégia de política externa da administração Trump menciona explicitamente a Doutrina Monroe, um princípio do século XIX que declarava o Hemisfério Ocidental como zona de influência exclusiva dos EUA. O documento propõe um ajuste da presença militar global para focar em “ameaças urgentes” nas Américas.

Especialistas interpretam este movimento como uma tentativa de consolidar a hegemonia regional, afastar concorrentes como a China e assegurar o acesso a recursos estratégicos. A política resgata uma visão ofensiva que, historicamente, não descartou o uso da força para expandir interesses económicos norte-americanos.

Conclusão

A ofensiva dos EUA contra a Venezuela é impulsionada por um conjunto complexo de motivações. Para além do discurso sobre narcotráfico e segurança, destacam-se o interesse no petróleo, a contenção da influência chinesa e a reafirmação de uma doutrina de hegemonia regional. Estes factores económicos e geopolíticos explicam a escalada de pressão sobre o governo de Nicolás Maduro.

Fonte: G1