Um parecer jurídico interno do Banco de Brasília (BRB) recomendou atenção especial às operações com o Master Bank quatro dias antes de o conselho da instituição aprovar a tentativa de compra de 58% do capital do banco. O documento, datado de 24 de março de 2025 e assinado pelo diretor jurídico Jacques Veloso, destacava a necessidade de observar rigorosamente os índices de liquidez e de Basileia durante a análise da proposta.
Nas páginas finais do parecer, o texto afirma: “Nesse passo, há que se ressaltar que a observância do índice de liquidez e do índice de Basileia é crucial nas contratações efetuadas pelas instituições financeiras, pois ambos são indicadores essenciais para garantir a solidez e a estabilidade do sistema financeiro. Desta forma, sugere-se sejam os índices apontados considerados quando da deliberação da proposta em comento pela alçada competente.”
Embora o documento não tenha identificado ilegalidades formais na proposta, as recomendações de cautela foram ignoradas. Em 28 de março de 2025, o conselho do BRB, sob a gestão de Paulo Henrique Costa, aprovou a aquisição por cerca de R$ 2 bilhões, vista na época como um “alívio” para o Master, que enfrentava questionamentos sobre seu modelo de captação de alto risco e balanços frágeis.
O BRB, em nota, afirmou que a recomendação jurídica estava relacionada aos “cuidados usuais” em processos de análise e due diligence, seguindo “boas práticas de governança”.
Das aprovações às investigações
A operação rapidamente se tornou alvo de escrutínio. O Ministério Público do Distrito Federal e o Ministério Público de Contas abriram procedimentos para investigar as condições da compra, enquanto o Tribunal de Justiça do DF chegou a suspender temporariamente a assinatura do contrato.
As suspeitas se intensificaram com a descoberta de indícios de fraudes bilionárias em carteiras de crédito vendidas pelo Master ao BRB. O Banco Central aprofundou a fiscalização e reportou inconsistências à Polícia Federal.
Em setembro de 2025, após meses de análise, o BC rejeitou oficialmente a compra — mesmo após o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) tê-la aprovado. Para investigadores do BC e da PF, a negociação parecia uma forma de “juntar os balanços” dos dois bancos e acobertar fraudes que geraram um rombo estimado em mais de R$ 12 bilhões.
Operação policial e liquidação
O caso culminou em novembro de 2025 com uma operação da Polícia Federal que prendeu Daniel Vorcaro, dono do Master, e afastou o presidente do BRB. Posteriormente, as irregularidades contribuíram para a decretação de liquidação extrajudicial do Master pelo Banco Central.
🔎 Liquidação extrajudicial: Procedimento em que o BC encerra as atividades de um banco sem condições de operar. Um liquidante assume o controle, fecha operações, vende bens e paga credores na ordem legal, até extinguir a instituição do sistema financeiro.
Em 2026, um novo inquérito foi aberto para apurar suspeitas de gestão fraudulenta no BRB, consolidando o episódio como um dos maiores escândalos financeiros recentes no país.