Num cenário internacional em transformação, marcado pela rivalidade entre potências e pela fragmentação de alianças, o Brasil emerge como um potencial agente de diálogo e estabilidade. Especialistas em Relações Internacionais avaliam que o país pode exercer influência significativa, aproveitando sua posição geográfica, peso econômico regional e tradição diplomática.

“O Brasil não é um polo de poder militar ou tecnológico comparável às grandes potências, mas dispõe de ativos relevantes, como dimensão territorial, peso demográfico, base econômica diversificada e tradição diplomática”, avalia Larissa Wachholz, pesquisadora do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri).

Atuação como Mediador Regional

Em um mundo onde o respeito ao Direito Internacional se torna cada vez mais crucial, o Brasil busca se posicionar como um articulador entre diferentes blocos. A estratégia passa pela defesa do multilateralismo, pela reforma das instituições internacionais e pela busca de soluções negociadas para conflitos, sem alinhamentos automáticos.

“A Europa também está bastante fragilizada com ações cada vez mais unilaterais, tanto da Rússia quanto dos Estados Unidos. A Europa perdeu muito protagonismo”, afirma Carolina Pedroso, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Frentes Estratégicas de Atuação

Os especialistas destacam três áreas sensíveis onde o Brasil pode exercer sua influência:

1. Crise na Venezuela

O Brasil tem buscado se posicionar como interlocutor para incentivar o diálogo político e reduzir tensões. “São mais de 2.200 quilômetros de fronteira compartilhada e um intenso fluxo de entrada de pessoas pelo Norte do país”, destaca Carolina Pedroso, enfatizando que o diálogo é imprescindível para proteger os interesses brasileiros e permitir uma eventual mediação.

2. Relação com os Estados Unidos

Adotando uma postura pragmática, o Brasil dialoga tanto com Washington quanto com países que enfrentam divergências com os norte-americanos. Essa estratégia reforça a imagem de ator independente. “O Brasil precisa desenvolver com clareza uma estratégia que inclua elementos de defesa da soberania”, afirma Pedroso.

3. Fortalecimento do Mercosul

O bloco é visto como uma ferramenta central para ampliar a influência brasileira e promover estabilidade na América do Sul. Iniciativas como o acordo Mercosul-União Europeia ganham importância estratégica. “Buscar parcerias com países de poder semelhante ao do Brasil é um caminho para que a nossa soberania não seja diretamente violada”, ressalta a professora.

O Poder da Influência Branda (Soft Power)

Larissa Wachholz destaca que o Brasil pode exercer influência relevante por meio do soft power, utilizando sua cultura e posição em áreas estratégicas. “Temas como agronegócio, energia limpa, minerais críticos e clima são centrais hoje, e o Brasil tem condições de exercer liderança nesses campos”, afirma, citando a atuação do país em fóruns como G20, BRICS e COP30.

Desafios e Oportunidades

O principal desafio é transformar o capital diplomático em resultados concretos. “Não nos interessa uma vizinhança problemática. Quanto mais estáveis, desenvolvidos e prósperos forem os nossos vizinhos, melhor para o Brasil”, disse Carolina Pedroso.

Para Larissa Wachholz, o Brasil pode ser um elemento crucial na preservação da estabilidade sul-americana, desde que mantenha “engajamento consistente, promoção da integração econômica e apoio prático à resolução de problemas, sem pretensões hegemônicas”.

Num momento de incertezas no tabuleiro geopolítico, a aposta brasileira no diálogo e no multilateralismo se apresenta não apenas como uma estratégia, mas como uma necessidade para afirmar seu papel de mediador regional e ator global relevante.