O governo francês enfrenta uma crise política após a aprovação do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. Partidos de oposição de ambos os extremos do espectro político apresentaram moções de censura contra o primeiro-ministro Sébastien Lecornu, acusando o governo de trair os interesses dos agricultores franceses.

Na sexta-feira, 9 de janeiro de 2026, o partido de extrema-esquerda França Insubmissa (LFI) e o partido de extrema-direita Reunião Nacional (RN) anunciaram moções para derrubar o executivo. A decisão surge como resposta à incapacidade da França em bloquear a ratificação do acordo no seio da UE, apesar de ter votado contra a medida.

Embora as moções tenham poucas hipóteses de sucesso num Parlamento fragmentado, o movimento simboliza a profunda divisão política em França. Analistas políticos alertam que este episódio pode fortalecer a narrativa anti-UE da Reunião Nacional, particularmente junto do eleitorado rural, a menos de um ano e meio das eleições presidenciais de 2027.

O acordo UE-Mercosul, negociado durante mais de 25 anos, é o maior tratado de livre comércio já celebrado pela União Europeia. A sua aprovação exigia apenas uma maioria qualificada entre os Estados-membros, um limiar que foi ultrapassado apesar da oposição de França, Polónia, Hungria, Irlanda e Áustria.

O governo de Emmanuel Macron argumenta que, apesar do voto contra, conseguiu concessões significativas de Bruxelas para proteger os agricultores franceses. Setores como o vinho, o queijo e os lacticínios deverão beneficiar com o acordo. No entanto, produtores de carne bovina, aves e açúcar temem a concorrência das importações mais baratas do Mercosul.

Num comunicado publicado na rede social X, o primeiro-ministro Lecornu criticou as moções de censura, afirmando que “enfraquecem a voz de França” num momento crucial de negociações orçamentais e de defesa dos interesses agrícolas nacionais.

O desfecho desta crise política poderá ditar o rumo do governo francês, que opera sem maioria parlamentar absoluta – uma situação inédita na Quinta República – enquanto tenta aprovar o orçamento para 2026.

Fonte: G1 Mundo