O Banco Central (BC) encaminhou ao Ministério Público Federal (MPF) uma nova notícia de fato com indícios de fraude no Banco Master, envolvendo R$ 11,5 bilhões em operações com fundos da Reag DTVM, empresa investigada na Operação Carbono Oculto por suspeitas de lavagem de dinheiro ligada ao crime organizado.
Segundo o documento do BC, acessado pelo blog, os recursos da Reag teriam sido utilizados para fazer aportes de capital no Banco Master e garantir sua operação nos últimos meses. No entanto, as investigações indicam que os ativos usados como garantia tinham baixa liquidez e eram supervalorizados, valendo muito menos do que o registrado nas transações.
O modelo da operação
De acordo com as apurações dos técnicos do BC, o esquema funcionava da seguinte forma: o Banco Master concedia um empréstimo a uma empresa; essa empresa aplicava o dinheiro em fundos de investimento; o primeiro fundo adquiria ativos de baixíssima liquidez (como títulos) por um valor inflacionado – por exemplo, um título que valia R$ 100 era transacionado por R$ 1.000.
Nessa cadeia, empresas ligadas ao controlador do banco, Daniel Vorcaro, ou a pessoas de sua confiança, utilizavam fundos administrados pela Reag. A Reag é alvo da Polícia Federal na Operação Carbono Oculto, que investiga a máfia dos combustíveis e suas ligações com o Primeiro Comando da Capital (PCC).
Indícios de crime e gestão de risco falha
O documento do BC enviado ao MPF afirma: “Os fatos ora relatados apresentam indícios de crimes contra o sistema financeiro nacional, cometidos pelos administradores do Banco Master S/A […] e da Reag Trust Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários (Reag DTVM)”.
O BC também apontou falhas graves na gestão de riscos do Banco Master. Entre julho de 2023 e julho de 2024, o banco realizou operações de crédito corporativo no valor total de R$ 11,5 bilhões “com elevadas exposições a clientes, e em desacordo com os princípios de seletividade, garantia, liquidez e diversificação de riscos”. As garantias estavam vinculadas a fundos de investimento, como o Bravo 95, que supostamente fariam o papel de fundos de liquidez.
Segundo os técnicos, a má gestão teria sido intencional, para evitar que os títulos fossem reavaliados ao seu valor real. O valor superestimado foi usado para justificar aportes de capital exigidos pelo regulador.
Posicionamentos
Em nota, a Reag Investimentos afirmou que não há, “em nenhuma das milhares de páginas produzidas e encaminhadas à Justiça pelo Ministério Público, pela Receita Federal ou pela Polícia Federal”, qualquer menção que estabeleça conexão entre a empresa e o PCC. A empresa disse colaborar integralmente com as investigações e reafirmou seu compromisso com a conformidade regulatória.
A defesa de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, já havia negado publicamente a existência de uma “fraude de R$ 12 bilhões”. O blog entrou em contato com o Banco Master e com a assessoria de Vorcaro para comentar a nova notícia de fato, mas não obteve resposta até a publicação deste texto.
Contexto da liquidação
Em resposta ao Tribunal de Contas da União (TCU), o Banco Central justificou a decisão de liquidar o Banco Master pelo “esgotamento de todas as alternativas de solução de mercado”, pela “crítica situação econômico-financeira” que impediria a instituição de honrar suas obrigações, e pela “verificação de irregularidades graves, com indícios de crimes que afetavam o valor dos ativos do conglomerado e comprometiam a sua solvência”.
Fonte: G1 – Blog do Valdo Cruz