O Brasil enfrenta uma pressão crescente sobre o sistema previdenciário, e especialistas ouvidos pelo g1 são unânimes: uma nova reforma da Previdência Social não é uma possibilidade distante, mas uma necessidade imediata que deveria estar sendo planejada desde "ontem". Apesar da última grande alteração ter ocorrido em 2019, uma combinação de fatores estruturais ameaça a sustentabilidade das contas públicas no médio e longo prazo.

Os três pilares da pressão previdenciária

Três forças principais convergem para reacender o debate sobre novas mudanças:

  • Alta informalidade e novas formas de trabalho: O mercado apresenta ocupações, como trabalhadores de aplicativos, que frequentemente não contribuem para a Previdência, reduzindo a base de arrecadação.
  • Benefícios indexados ao salário mínimo: A política de valorização real do piso nacional eleva despesas acima da inflação, já que mais de 60% dos benefícios são atrelados a ele.
  • Envelhecimento populacional e queda da natalidade: A demografia aponta para um futuro com proporcionalmente menos trabalhadores ativos para sustentar um número cada vez maior de aposentados.

Embora a reforma de 2019 tenha contido o rombo no curto prazo (especialmente em 2024 e 2025), projeções oficiais indicam que o déficit do Regime Geral de Previdência Social (RGPS) pode mais que quadruplicar nos próximos 75 anos.

O desequilíbrio entre arrecadação e despesas

Os números revelam um abismo crescente. Em 2025, o governo federal precisou complementar as contas da Previdência com R$ 436 bilhões para honrar benefícios, aposentadorias e pensões. Desse total, mais de R$ 320 bilhões foram para cobrir o déficit do RGPS.

Bernardo Schettini, consultor do Senado, explica que a retração da arrecadação, impulsionada pela informalidade, contrasta com o avanço das despesas, acelerado pela indexação ao salário mínimo. "É um desafio bem complicado. Nesse modelo que a gente tem hoje, não vejo sustentabilidade. Acho que a gente tem que fazer uma mudança no modelo de custeio da previdência", afirmou.

O peso da demografia e o sistema de repartição

Leonardo Rolim, consultor da Câmara dos Deputados, destaca o impacto dos dados populacionais. Ele projeta que, em 2070, o país terá cerca de seis vezes mais idosos do que em 2000. "Nos últimos 25 anos, o número de pessoas em idade ativa cresceu cerca de 30%, enquanto o total de potenciais beneficiários mais do que dobrou", disse.

Esse cenário é crítico para o sistema de repartição, vigente no Brasil, onde as contribuições dos trabalhadores ativos financiam diretamente os benefícios dos inativos. Com menos contribuintes para cada beneficiário, a conta não fecha. "Enquanto você tem um país jovem, esse modelo funciona muito bem… [No futuro] você vai ter contribuições muito altas ou então aposentadorias em valores muito baixos para ser viável", explicou Rolim.

Crescimento acelerado do volume de benefícios

Pedro Souza, analista da Instituição Fiscal Independente (IFI), observa uma pressão adicional: o volume de benefícios não para de crescer. Em uma década, o total saltou de 28,3 milhões (2015) para 35,2 milhões (2025), uma alta média anual de 2,21%.

Esse crescimento se reflete no déficit. Em valores reais, o rombo da Previdência saiu de R$ 147,5 bilhões em 2015 para R$ 323,1 bilhões em 2025. "Esse descompasso decorre muito mais do crescimento das despesas", destacou Souza, que apontou que, nos últimos 10 anos, a receita do RGPS cresceu em média 1,82% ao ano (em termos reais), enquanto a despesa avançou quase o dobro: 3,37% ao ano.

A necessidade de discutir o tema é reconhecida até pelo governo. Em 2025, o secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, admitiu que o sistema está pressionado e que o debate é inevitável. A mensagem dos especialistas é clara: postergar a discussão sobre um novo modelo apenas agrava um problema que já bate à porta.