A Polícia Federal deflagrou, nesta quarta-feira (14), a segunda fase de uma operação que investiga um suposto esquema de fraudes financeiras no Banco Master. Entre os alvos está o conhecido e polémico empresário Nelson Tanure, abordado no Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro, onde teve o seu telemóvel apreendido.
Tanure, um nome recorrente no noticiário económico devido à sua estratégia de investimento focada na reestruturação de empresas em crise, é investigado no âmbito de suspeitas de organização criminosa, gestão fraudulenta de instituição financeira, manipulação de mercado e lavagem de dinheiro. A operação, que incluiu 42 mandados de busca e apreensão, determinou ainda o bloqueio de bens e valores superiores a 5,7 mil milhões de reais.
Quem é Nelson Tanure?
Nascido em Salvador em 1951, Nelson Tanure formou-se em Administração de Empresas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Iniciou a carreira na empresa imobiliária do pai e, a partir dos anos 80, construiu uma reputação ao adquirir e reestruturar companhias com dificuldades financeiras em setores como energia, telecomunicações, petróleo, saúde, infraestrutura e media.
O seu portfólio empresarial é vasto e inclui participações em empresas como a Light (distribuidora de energia), a Alliança Saúde (medicina diagnóstica), a Gafisa (construção civil), a PRIO (petróleo), a TIM Brasil e a Docas Investimentos. Também controla a Ligga Telecom, formada a partir da união de operadoras regionais, e o fundo Saint German, acionista do Grupo Pão de Açúcar.
Trajetória marcada por aquisições e polémicas
A estratégia de Tanure baseia-se frequentemente no uso intensivo de empréstimos e em reestruturações profundas de empresas desvalorizadas. Um dos seus primeiros negócios de destaque foi na Sequip, empresa de engenharia do setor petrolífero. Mais tarde, assumiu o controle de estaleiros em situação falimentar, como a Emaq, que reestruturou e vendeu.
Nos anos 2000, entrou no setor da media com a aquisição do Jornal do Brasil e da Gazeta Mercantil, num período de forte crise do setor. No petróleo, tornou-se uma figura de proa ao assumir o controle da HRT, que deu origem à PRIO. Na saúde, expandiu a sua atuação com a Alliança Saúde, e nas telecomunicações, com a criação da Ligga.
Envolvimento em investigações e disputas
Apesar do perfil discreto, Tanure é frequentemente notícia por envolvimento em disputas societárias e questões de governança corporativa. A operação atual do Banco Master não é a primeira vez que o seu nome surge em investigações.
Em 2025, a Receita Federal deflagrou a maior operação contra lavagem de dinheiro no mercado financeiro, reacendendo questionamentos sobre os fundos ligados ao empresário. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) reabriu uma investigação sobre a oferta pública de aquisição (OPA) da Alliança Saúde, alegando que Tanure teria extrapolado o prazo legal para lançar a oferta obrigatória aos minoritários.
Outra polémica envolve uma denúncia do Ministério Público Federal por alegado uso de informação privilegiada na compra da incorporadora Upcon pela Gafisa, entre 2019 e 2020. A defesa de Tanure nega todas as acusações.
A ligação com o Banco Master
A investigação atual da Polícia Federal apura suspeitas de que Tanure seria o verdadeiro controlador do Banco Master, utilizando uma rede de empresas e fundos para influenciar a instituição sem a autorização do Banco Central. O empresário já negou qualquer vínculo societário ou poder de controle sobre o banco.
A primeira fase da operação, em novembro do ano passado, resultou em sete prisões, incluindo a do dono oficial do banco, Daniel Vorcaro. As fraudes investigadas podem chegar aos 12 mil milhões de reais.
Para além dos negócios, Nelson Tanure, filho de pai espanhol e mãe brasileira, é conhecido pela sua paixão por música clássica e ópera, tendo sido vice-presidente da Orquestra Sinfónica Brasileira. É pai de quatro filhos.