O número de petroleiros e embarcações comerciais abandonadas por seus proprietários disparou globalmente, deixando milhares de marinheiros presos em alto-mar, sem salários, provisões ou esperança de repatriação. Em 2025, a International Transport Workers’ Federation (ITF) registrou 410 navios abandonados, afetando 6.223 trabalhadores marítimos – um aumento de quase um terço em relação ao ano anterior.

Uma Vida à Deriva: O Testemunho de Ivan

Ivan (nome fictício), um oficial de convés russo, falou à BBC a partir de um petroleiro abandonado fora das águas territoriais da China. “Houve falta de carne, grãos, peixe — coisas simples para a sobrevivência”, relatou. “A tripulação estava com fome, com raiva, e tentávamos sobreviver apenas dia após dia.” O navio, carregando 750 mil barris de petróleo bruto russo (valor estimado em US$ 50 milhões), foi declarado abandonado após meses sem pagamento de salários.

Os Motores da Crise: Geopolítica e ‘Frotas Fantasmas’

A instabilidade geopolítica, agravada por conflitos e pela pandemia, desorganizou cadeias de suprimentos e custos de frete, levando algumas empresas à insolvência. No entanto, a ITF aponta um fator crucial: o crescimento das “frotas fantasmas”. Estas são embarcações antigas, de propriedade obscura, muitas vezes sem seguro ou condições de navegar, que operam sob bandeiras de conveniência (como Panamá, Libéria ou Gâmbia) para burlar sanções internacionais, transportando petróleo de países como Rússia, Irã e Venezuela.

Em 2025, 82% dos navios abandonados (337) navegavam sob bandeiras de conveniência. A Gâmbia, por exemplo, passou de zero petroleiros registrados em 2023 para 35 em março de 2025, ilustrando a rapidez com que esse sistema se expande.

O Custo Humano: Salários Perdidos e Vidas em Suspenso

Segundo dados da ONU, as tripulações abandonadas acumulavam US$ 25,8 milhões em salários atrasados em 2025. A ITF conseguiu recuperar US$ 16,5 milhões. As nacionalidades mais afetadas foram:

  • Índia: 1.125 marinheiros (18% do total)
  • Filipinas: 539 marinheiros
  • Síria: 309 marinheiros

O governo indiano, em resposta, colocou na lista negra 86 embarcações estrangeiras por abandono e violações de direitos.

Uma Falha Sistêmica e a Busca por Soluções

Especialistas acusam os Estados de bandeira de conveniência de uma “completa abdicação de responsabilidade”. Mark Dickinson, do sindicato Nautilus International, defende a necessidade de um “vínculo genuíno” entre proprietários e a bandeira do navio, algo exigido pelo direito internacional mas pouco aplicado.

Enquanto isso, marinheiros como Ivan aprendem a lição pela forma mais dura. “Com certeza vou ter uma conversa adequada sobre as condições… e vou recorrer à internet, onde podemos ver quais navios são proibidos”, afirma. A resolução da crise exigirá cooperação internacional robusta para fechar as brechas legais que permitem o abandono e proteger aqueles que mantêm o comércio global em movimento.