A decisão da ex-primeira-ministra neozelandesa Jacinda Ardern de se mudar para Sydney, na Austrália, reacendeu o debate sobre o ‘êxodo de cérebros’ que afeta o seu país de origem. Para uma nação cujo símbolo é um pássaro que não voa, o kiwi, a emigração em massa tornou-se uma realidade preocupante.
Nos últimos anos, o número de neozelandeses a deixar o país atingiu recordes, com muitos a rumar à vizinha Austrália. A confirmação da mudança de Ardern e da sua família destacou as dificuldades que a Nova Zelândia enfrenta para reter os seus talentos, num contexto de economia estagnada, custo de vida elevado e crise habitacional.
“A mudança de Ardern será provavelmente vista como um símbolo deste padrão maior. Para alguns, parecerá uma deserção”, afirmou Alan Gamlen, diretor do centro de migração da Universidade Nacional Australiana, à BBC.
Os números do êxodo
No ano passado, mais de 66 mil neozelandeses emigraram, uma média de 180 pessoas por dia. Para um país com apenas 5,3 milhões de habitantes, estes números são significativos. Embora o fluxo seja parcialmente compensado pelo retorno de alguns cidadãos, a tendência de saída, especialmente entre os jovens, é clara e crescente.
Trata-se de uma tendência de longo prazo, com surtos esporádicos desde os anos 1970. No entanto, segundo Gamlen, “a tendência ressurgiu consideravelmente nos últimos cinco anos”. Cada vez mais jovens partem de forma mais permanente, relutantes em voltar a um país que não lhes parece oferecer um futuro próspero.
As razões por trás da partida
A Nova Zelândia enfrenta desafios económicos e sociais que estão a empurrar os seus cidadãos para fora:
- Economia e emprego: Taxas de desemprego elevadas, com níveis não vistos há uma década (exceto durante a pandemia). Os salários não acompanharam a inflação.
- Custo de vida: Os preços dos produtos básicos estão entre os mais altos do mundo desenvolvido.
- Crise habitacional: O aumento dos preços dos imóveis e a falta de oferta tornaram a compra e o arrendamento inacessíveis para muitos.
- Desigualdades: Problemas persistentes nos setores da saúde e da educação.
Enquanto isso, a Austrália, destino de cerca de metade dos emigrantes, oferece melhores perspetivas de trabalho, salários mais altos e um mercado habitacional mais acessível, apesar das suas próprias dificuldades.
O testemunho de quem partiu
Nicole Ballantyne, de 27 anos, trocou Auckland por Sydney há uma década, inicialmente por melhores oportunidades de estudo. Hoje, não se vê a regressar.
“Sydney é uma versão melhorada de Auckland”, disse à BBC. “Há muito mais coisas a acontecer, as oportunidades de carreira são muito melhores e está um pouco mais conectada com o resto do mundo.”
O seu irmão também emigrou, e nenhum dos seus amigos do ensino secundário permanece na Nova Zelândia. “Se Auckland pudesse oferecer isto, eu teria ficado”, afirma, destacando que conseguiu construir na Austrália uma vida que não teria no seu país natal.
Uma preocupação política e pessoal
O êxodo causa angústia entre os legisladores. A parlamentar da oposição Ginny Andersen revelou ao Serviço Mundial da BBC que o seu filho mais velho se mudou para Melbourne por não encontrar emprego na Nova Zelândia, e o seu irmão, professor, trabalha na China por melhores salários.
“Esta é uma realidade para muitas famílias neozelandesas, que foram divididas… para mim, é desolador”, confessou.
Com eleições gerais marcadas para novembro, os políticos prometem soluções, desde a redução da imigração para aliviar o mercado de trabalho até incentivos para investimento na construção de habitação. O governo atual argumenta que a fase mais profunda do êxodo é uma ressaca da pandemia, mas reconhece o problema.
“Certamente, não é [perfeito]. Existe um profundo mal-estar entre muitos neozelandeses sobre o estado do país”, admitiu o ministro da Habitação, Chris Bishop, à BBC.
O outro lado da moeda
Especialistas apontam que a emigração também pode trazer benefícios. As pessoas que regressam enriquecem o país com experiência e podem promover inovações. “Cada partida representa novas conexões e uma rede em expansão”, afirmou Merryn Tawhai, do Instituto de Bioengenharia de Auckland.
Quanto a Jacinda Ardern, Nicole Ballantyne especula que a sua mudança pode ter razões mais pessoais: “Provavelmente, existe um certo nível de assédio por lá (na Nova Zelândia) e ela é uma figura pública… Na Austrália, talvez ela consiga viver mais discretamente.”
Ardern deixou a política em janeiro de 2023, teve uma bolsa na Universidade de Harvard e, após alguns anos a viajar, a sua família decidiu estabelecer-se na Austrália “por enquanto”, segundo o seu gabinete.
A sua partida simboliza um desafio maior para a Nova Zelândia: como tornar o país num lugar onde os seus melhores e mais brilhantes não só nascem, mas também escolhem ficar.