O anúncio das novas tarifas de importação dos Estados Unidos, em abril de 2025, apelidadas por Donald Trump de “Dia da Libertação”, deixou de fora dois parceiros comerciais fundamentais: México e Canadá. Enquanto o mundo se ajustava a um novo regime tarifário, o México emergiu como um dos grandes beneficiários inesperados desta política, consolidando sua posição como principal fornecedor dos EUA. No entanto, a renegociação do T-MEC em 2026 coloca um teste decisivo à frente.
A isenção inicial para produtos que cumprem as regras do Tratado México-Estados Unidos-Canadá (T-MEC) foi crucial. Segundo Erica York, analista da Tax Foundation, as transações no âmbito do acordo “dispararam em 2025”. O Modelo de Orçamento Penn Wharton (PWBM) da Universidade da Pensilvânia indicou que a tarifa efetiva para produtos mexicanos foi de apenas 4,6% em outubro de 2025, contra 37,1% para os chineses e uma média global de 10,91%.
Este cenário levou a um desvio comercial significativo. Exportadores que antes preferiam pagar tarifas baixas para evitar a burocracia do T-MEC mudaram de estratégia. Dados citados por York mostram que as importações americanas no âmbito do acordo saltaram de cerca de 49% (provenientes do México) em 2024 para 86%-87% nos últimos meses. “O México está se consolidando no primeiro lugar entre as importações americanas”, afirma o economista Mario Campa, da Universidade Columbia.
Contudo, o setor automotivo, vital para a economia mexicana, teve um desempenho modesto, com crescimento de apenas 0,9% em 2025. Setores como aço e alumínio, sujeitos a tarifas de 25%, registraram quedas nas exportações.
Agora, a grande incógnita é o futuro do T-MEC. Em janeiro de 2026, Trump declarou que o tratado lhe parecia “irrelevante”, lançando dúvidas sobre sua continuidade. A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, expressou confiança na relação comercial, enquanto o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, assinou novos acordos com a China, um movimento que Campa vê como um “mau sinal” para a coesão do bloco norte-americano.
Especialistas apontam para cenários que vão da renovação do acordo à sua desintegração total. “O México precisaria começar a considerar mais seriamente esse plano B ou C”, alerta Campa, referindo-se à necessidade de diversificar o comércio e reduzir a dependência dos EUA, tal como proposto no “Plano México” de Sheinbaum. A capacidade do país de navegar estas negociações complexas definirá se a vantagem conquistada sob as tarifas de Trump será sustentável a longo prazo.