Pesquisadora que cresceu entre mães solo estuda realidade de quase 11 milhões de brasileiras
A pesquisadora Mariene Ramos, de 36 anos, conhece de perto a realidade das mães solo. Criada em Novo Gama (GO), ela ajudava a mãe a cuidar dos filhos de vizinhas enquanto elas trabalhavam. Muitas eram empregadas domésticas e, na prática, criavam os filhos sozinhas — mesmo algumas tendo parceiros ausentes.
Hoje, Mariene estuda esse tema no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Ela mesma tornou-se mãe solo durante o mestrado, levando a filha para aulas noturnas. “Foi aí que me deu mais vontade ainda de estudar sobre esse tema”, conta.
Retrato das mães solo no mercado de trabalho
Com base na Pnad Contínua de 2022, a pesquisa de Mariene revela um cenário preocupante:
- Renda 40% menor: Mães solo têm rendimento médio de R$ 2.322, quase 40% abaixo dos pais com cônjuge (R$ 3.869)
- Baixa formalização: Apenas 28,3% contribuem para a previdência, contra 54,8% dos pais com cônjuge
- Concentração em serviços domésticos: 21,9% trabalham como empregadas domésticas, percentual 27 vezes maior que o dos pais com cônjuge
- Taxa de ocupação reduzida: 50,2%, inferior aos 81% dos pais com cônjuges
Escolaridade e discriminação
Mais de 55% das mães solo têm no máximo ensino médio incompleto, e apenas 13,7% concluíram o ensino superior. Mas Mariene alerta: “A escolaridade não explica tudo. Muitas vezes, o empregador supõe que aquela pessoa vai ter menos disponibilidade e vai render menos”.
O perfil racial também chama atenção: 62% são negras (14% pretas e 47% pardas), percentual superior ao de outros grupos familiares.
Geração sanduíche e dependência de benefícios
Um terço das mães solo (33,5%) residem com pessoas acima de 60 anos — mais que o dobro das mães com cônjuge (15,7%). “Esses idosos podem representar uma rede de apoio, mas também podem precisar da ajuda dessa mãe”, explica a pesquisadora.
Além disso, 57% recebem algum benefício social do Estado. “Como essas mães não estão conseguindo receber um rendimento que consiga arcar com suas despesas, o Estado acaba tendo que entrar com benefícios”, afirma Mariene.
Caminhos para mudança
A pesquisadora defende três pilares para transformar essa realidade:
- Ampliação de creches em tempo integral: Apenas 41,2% das crianças até 3 anos são atendidas por creches no país
- Reconhecimento do tempo de cuidado: Mulheres brasileiras trabalham em média 58,1 horas semanais (remuneradas e não remuneradas), ante 50,3 horas dos homens
- Qualificação profissional: Investimento em formação, com suporte de creches para que as mães possam estudar
“Precisamos olhar para essas mulheres — essa maioria de mulheres nas chefias de lar, essas 11 milhões de mães solo”, defende Mariene. “Não se trata mais de um grupo marginal, mas de uma transformação estrutural do país. Quando o mercado e as políticas públicas se ajustam a essa realidade, toda a economia ganha.”