O presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu revogar o decreto que previa a concessão dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins à iniciativa privada, após intensa pressão interna do governo e protestos de movimentos sociais. A medida, anunciada nesta segunda-feira (23), representa uma vitória dos ministros Guilherme Boulos (Secretaria-Geral) e Sônia Guajajara (Povos Indígenas) sobre a ala governista liderada pela Casa Civil.
As discussões sobre o decreto se arrastavam há pelo menos três meses, com indígenas, ambientalistas e movimentos sociais organizando protestos durante a COP30 para exigir a derrubada da medida. Em novembro, Boulos anunciou que Lula havia autorizado uma consulta aos povos indígenas sobre a continuidade do decreto.
Nos últimos dias, a pressão aumentou significativamente. Manifestações contra as hidrovias na Amazônia ganharam força, o tema viralizou nas redes sociais e começou a gerar repercussão negativa para o governo dentro de sua própria base de apoio.
Alertado sobre a escalada da crise, Lula – que se encontrava em viagem oficial na Coreia do Sul – conversou por telefone com Boulos e decidiu pela revogação. O presidente determinou que o ministro levasse sua decisão para uma reunião com outros ministros no Palácio do Planalto.
O encontro foi tenso. Representantes da Casa Civil, Agricultura e Portos e Aeroportos ficaram descontentes com o anúncio e sugeriram uma solução de meio-termo, com concessões limitadas à iniciativa privada. Boulos e Guajajara, no entanto, se reuniram com representantes indígenas que rejeitaram qualquer compromisso e mantiveram a exigência pela revogação total.
Diante da inflexibilidade dos movimentos sociais, os dois ministros retornaram à reunião interministerial e comunicaram que não havia espaço para negociação. Em seguida, convocaram uma coletiva de imprensa para anunciar formalmente a revogação do decreto.
A decisão marca um raro momento em que Lula contrariou a Casa Civil nos últimos meses, demonstrando a força política crescente da ala progressista do governo na defesa de pautas ambientais e indígenas.