O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) intensifica esforços para diversificar as parcerias internacionais do Brasil, em resposta ao cenário de crescente tensão global provocado pelas ofensivas políticas e comerciais do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A estratégia central passa pelo fortalecimento das relações com a Ásia.

Como parte desta agenda, Lula tem uma viagem marcada à Coreia do Sul, com o objetivo de fechar acordos económicos e diplomáticos. Esta movimentação ocorre num momento em que Trump amplia discursos protecionistas e pressiona aliados históricos, gerando instabilidade no comércio global e reconfigurando alianças geopolíticas.

Especialistas apontam para uma crise profunda no multilateralismo. Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da FGV, considera que o mundo atravessa “a pior crise das últimas décadas” nesta área, com atitudes que remetem a um cenário onde “prevalece a lei da selva”. Larissa Wachholz, coordenadora do Programa Ásia do Cebri, sublinha que o mundo vive uma fase de transição, sem uma multipolaridade consolidada, apesar dos EUA se manterem como atores centrais.

No Planalto, a avaliação é de que este contexto abre espaço para o Brasil reforçar a sua atuação internacional, baseando-se no multilateralismo e na ampliação de mercados para além do eixo tradicional Estados Unidos-Europa. A aproximação com a Ásia é vista como uma forma estratégica de reduzir a dependência de mercados tradicionais e proteger a economia brasileira de choques externos, como os provocados por medidas protecionistas.

A Coreia do Sul é considerada um parceiro estratégico em setores-chave como a indústria automóvel, semicondutores, tecnologia, infraestrutura e energia limpa, além de ser um importante investidor estrangeiro em potencial. A expectativa do governo é que a viagem resulte em acordos que ampliem o fluxo comercial, atraiam investimentos e fortaleçam a competitividade da economia nacional num cenário global volátil.

Paralelamente, o Brasil mantém um diálogo próximo com a China, outra potência asiática fundamental. Recentemente, Lula e o presidente chinês, Xi Jinping, conversaram por telefone durante 45 minutos, abordando a necessidade de proteger interesses comuns e fortalecer o papel das Nações Unidas. Este alinhamento contrasta com as ações dos EUA, que, sob a administração Trump, têm adotado uma postura mais confrontacional, incluindo operações militares na Venezuela e ameaças a outros países.

Stuenkel avalia que o sistema global está a caminhar para uma multipolaridade efetiva, com EUA e China como potências dominantes, mas com polos como a União Europeia e a Índia a aumentarem a sua autonomia estratégica. Para o Brasil, a ascensão da China tem sido crucial, permitindo uma menor dependência dos Estados Unidos através de uma ampla cooperação comercial e diplomática com Pequim.

Os movimentos recentes no tabuleiro internacional sinalizam o início de uma reconfiguração da ordem global. Enquanto os EUA adotam uma postura de confronto, a China avança de forma discreta, ampliando a sua influência. Neste novo cenário, a diplomacia brasileira, liderada por Lula, aposta na diversificação de parcerias e no aprofundamento dos laços com a Ásia como forma de garantir espaço de manobra e protagonismo num mundo cada vez mais fragmentado.