O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) publicou um artigo no jornal americano The New York Times neste domingo (18), no qual critica veementemente a ação militar dos Estados Unidos que resultou na prisão do presidente venezuelano Nicolás Maduro, em 3 de janeiro. Lula classificou o episódio como “mais um capítulo lamentável na erosão contínua do direito internacional e da ordem multilateral”.

Em sua análise, o presidente brasileiro alerta que o uso recorrente da força por grandes potências enfraquece a autoridade da Organização das Nações Unidas (ONU) e de seu Conselho de Segurança. “Quando o uso da força para resolver disputas deixa de ser exceção e passa a ser regra, a paz, a segurança e a estabilidade globais ficam ameaçadas”, argumentou.

Lula já havia condenado a operação no dia da captura de Maduro, chamando-a de “afronta gravíssima à soberania da Venezuela”. No artigo, ele aprofunda a crítica, afirmando que o respeito seletivo às normas internacionais leva à desordem e fragiliza os Estados individualmente e o sistema internacional como um todo. “Sem regras acordadas coletivamente, é impossível construir sociedades livres, inclusivas e democráticas”, escreveu.

O presidente destacou que ações unilaterais “ameaçam a estabilidade ao redor do mundo, interrompem o comércio e os investimentos, aumentam o fluxo de refugiados e enfraquecem ainda mais a capacidade dos Estados de enfrentar o crime organizado e outros desafios transnacionais”.

Para Lula, é “particularmente preocupante” que essa prática esteja sendo aplicada à América Latina e ao Caribe, regiões que, segundo ele, buscam a paz por meio da igualdade soberana entre as nações e da rejeição ao uso da força. Ele ressaltou que esta é a primeira vez, em mais de 200 anos de história independente, que a América do Sul sofre um ataque militar direto dos Estados Unidos.

“A América Latina e o Caribe abrigam mais de 660 milhões de pessoas. Temos nossos próprios interesses e sonhos a defender”, afirmou. Em um mundo multipolar, segundo Lula, nenhum país deveria ter suas relações exteriores questionadas por buscar universalidade. “Não seremos submissos a projetos hegemônicos.”

No texto, o presidente também defendeu uma agenda regional positiva, focada em investimentos em infraestrutura, geração de empregos e cooperação no combate à fome, pobreza e mudanças climáticas. Ele afirmou que “a história mostrou que o uso da força nunca nos aproximará desses objetivos” e classificou como ultrapassadas as divisões do mundo em zonas de influência.

Lula declarou que o futuro da Venezuela “deve permanecer nas mãos de seu povo” e que apenas um processo político inclusivo, liderado por venezuelanos, pode levar a um futuro democrático e sustentável. Ao final, ele disse que o governo brasileiro mantém diálogo construtivo com os Estados Unidos, destacando que Brasil e EUA são as duas democracias mais populosas do continente. “Somente juntos podemos superar os desafios que afligem um hemisfério que pertence a todos nós”, concluiu.

Internamente, a postura de Lula gerou reação dividida. Pesquisa Quaest divulgada na última quinta-feira (15) mostrou que 51% dos brasileiros consideram errada a condenação do presidente à ação dos EUA. O levantamento também apontou que 66% acreditam que o governo brasileiro deveria se manter neutro no assunto.