O presidente Luiz Inácio Lula da Silva emitiu um alerta contundente sobre o estado das relações internacionais, denunciando o enfraquecimento do multilateralismo e a ascensão da “lei do mais forte”. Em discurso durante evento do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra, em Salvador, Lula caracterizou o momento atual como “muito crítico” e afirmou que a Carta das Nações Unidas (ONU) está sendo simbolicamente “rasgada”.
Segundo o presidente, o cenário global tem sido marcado pelo avanço de posturas unilaterais em detrimento da cooperação internacional. Este fenômeno, em sua avaliação, reflete-se tanto em crises recentes na América Latina quanto em mudanças políticas em países centrais, configurando um quadro amplo de instabilidade democrática.
Críticas ao unilateralismo e à postura de Trump
Lula direcionou críticas ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, citando declarações recentes feitas no Fórum Econômico Mundial, em Davos. Trump teria ressaltado o desejo norte-americano de se apoderar da Groenlândia, território dinamarquês, e anunciado um Conselho para paz em Gaza com imagens de resorts de luxo — falas recebidas com receio pela comunidade internacional.
“Em vez de corrigir a ONU, como a gente reivindica desde 2003, com a entrada de novos países — como México, Brasil e países africanos — o que está acontecendo é que o presidente Trump está fazendo uma proposta de criar uma nova ONU, como se ele sozinho fosse o dono da ONU”, criticou Lula.
Defesa intransigente do multilateralismo
Em resposta ao cenário, o presidente brasileiro afirmou ter intensificado contatos diplomáticos nas últimas semanas, numa tentativa de articular uma reação internacional. Ele mencionou conversas por telefone com líderes de diversas nações e blocos, incluindo o presidente russo Vladimir Putin, o presidente chinês Xi Jinping, o primeiro-ministro da Índia, além de autoridades da Hungria e do México.
O objetivo, segundo Lula, é avaliar a possibilidade de uma reunião internacional que reafirme o compromisso com o multilateralismo e evite que as relações entre países passem a ser regidas pela força militar, intolerância ou imposições unilaterais.
Política externa brasileira: diálogo sem subordinação
Lula reafirmou os princípios da política externa brasileira, baseada no diálogo e na ausência de alinhamentos exclusivos. “O Brasil quer ter relação com os Estados Unidos, quer ter relação com Cuba, quer ter relação com a China, quer ter relação com a Rússia. A gente não tem preferência”, declarou.
No entanto, o presidente foi enfático ao estabelecer um limite: “O que a gente não aceita mais é voltar a ser colônia para alguém mandar na gente”. Ele contrastou a realidade das Forças Armadas brasileiras, que não disputam poder com grandes potências militares, com discursos que exaltam a força bélica como instrumento de intimidação.
O caminho da “guerra do convencimento”
Rejeitando confrontos armados, Lula defendeu o que chamou de “guerra do convencimento”. “Eu não quero fazer guerra armada… O que eu quero é fazer guerra com o poder do convencimento, com argumento, mostrando que a democracia é imbatível”, afirmou.
Para o presidente, a cooperação e o compartilhamento de experiências positivas entre países são mais eficazes do que a imposição pela força. Ele também expressou preocupação com os riscos à democracia em diferentes partes do mundo, exigindo atenção especial do Brasil em 2026, ano de eleições no país.