Itália muda posição e pode destravar acordo histórico após 25 anos
O acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, negociado há mais de 25 anos, pode finalmente ser ratificado nesta sexta-feira (9). A mudança de posição da Itália, que passou a sinalizar apoio, é vista como decisiva para destravar o processo na reunião dos embaixadores da UE.
O apoio italiano ganha peso estratégico porque o país vinha hesitando por meses, preocupado com os impactos no setor agrícola. A ratificação exige uma maioria qualificada no Conselho Europeu, o que significa o apoio de países que representem pelo menos 65% da população do bloco.
“Sem a Itália, que é um país populoso, fica muito difícil atingir esse patamar”, explica José Pimenta, diretor de Comércio Internacional da BMJ Consultores Associados. “Se ela se alinhar à França, o acordo pode sofrer um revés. Caso fique ao lado de Alemanha e Espanha, o tratado fica praticamente aprovado na UE.”
Salvaguardas agrícolas foram a chave
Especialistas apontam que a mudança italiana está diretamente ligada às chamadas “salvaguardas agrícolas” incorporadas ao texto final. Esses mecanismos permitem limitar temporariamente as importações em caso de risco para produtores locais, e foram tornados mais ágeis:
- O gatilho para acioná-las foi reduzido: basta um crescimento médio de 5% nas importações ao longo de três anos para produtos sensíveis (como carne), contra 10% anuais anteriormente.
- O prazo de investigação caiu de seis para três meses (dois para produtos agrícolas).
- Deixou de ser exigida comprovação detalhada de dano, passando a valer uma “presunção de prejuízo”.
“A forma como a Itália se posicionar vai definir se o acordo avança ou não”, avalia Regiane Bressan, especialista em Relações Internacionais da Unifesp, caracterizando o voto italiano como um “voto de Minerva”.
França mantém oposição firme
Enquanto a Itália oscila, a França confirmou que votará contra o acordo. O presidente Emmanuel Macron reforçou a posição, alinhada com preocupações de produtores rurais franceses sobre concorrência com produtos mais baratos e padrões ambientais diferentes.
Recentemente, a França decretou a suspensão temporária de importações de alguns produtos da América do Sul, como abacates e mangas, que contenham resíduos de agrotóxicos proibidos na UE.
Alemanha e Espanha pressionam pela aprovação
Do outro lado, Alemanha e Espanha mantêm apoio firme. Líderes desses países argumentam que o acordo ajuda a mitigar tarifas dos EUA, reduz a dependência da China e amplia o acesso a mercados e minerais estratégicos.
“Se a União Europeia quiser manter credibilidade na política comercial global, decisões precisam ser tomadas agora”, declarou o chanceler alemão Friedrich Merz.
O tratado, que criaria a maior zona de livre-comércio do mundo, prevê a redução gradual de tarifas e estabelece regras comuns para bens industriais, agrícolas, serviços, investimentos e propriedade intelectual.
Fonte: G1