O preço do ouro atingiu uma série de máximas históricas recentemente, impulsionado pelas incertezas geopolíticas globais. O metal ultrapassou a barreira simbólica dos 5.000 dólares por onça troy, consolidando uma valorização excecional de mais de 60% em 2025.

Este movimento ascendente ocorre num contexto de tensões internacionais, nomeadamente entre os Estados Unidos, a NATO e a Gronelândia, que alimentam receios financeiros. A política comercial agressiva do ex-presidente norte-americano Donald Trump, incluindo ameaças de tarifas aduaneiras massivas, contribuiu para a volatilidade dos mercados, reforçando o apelo dos ativos considerados seguros.

Porque é que o ouro é visto como um refúgio?

O ouro e outros metais preciosos são tradicionalmente procurados pelos investidores em fases de turbulência. A prata, por exemplo, também registou valores recorde, aproximando-se dos 100 dólares por onça. Vários fatores sustentam esta procura:

  • Inflação persistentemente elevada.
  • Dólar norte-americano com tendência de fraqueza.
  • Aquisições significativas por parte de bancos centrais de todo o mundo.
  • Expectativa de cortes nas taxas de juro pelo Federal Reserve.

“Quando a confiança nos ativos financeiros e na estabilidade política começa a oscilar, o ouro tende a reagir primeiro”, explica Anita Wright, planeadora financeira da Ribble Wealth Management.

O papel das taxas de juro e da geopolítica

Existe uma relação inversa entre as taxas de juro e o preço do ouro. Quando as taxas descem, os rendimentos de ativos como os títulos do governo tornam-se menos atrativos, levando os investidores a procurar alternativas como o ouro.

“A relação é inversa porque o custo de oportunidade de manter o dinheiro num título do governo, na verdade, não vale mais a pena. Por isso, as pessoas vão para o ouro”, detalha Ahmad Assiri, estrategista da corretora Pepperstone.

Conflitos como a guerra na Ucrânia e na Faixa de Gaza, além de crises políticas, como a envolvendo a Venezuela, têm sido catalisadores adicionais para a valorização do metal.

Como investir em ouro? Os riscos a considerar

Nem todos os investidores adquirem ouro físico. Muitos optam por produtos financeiros como os Fundos de Investimento (ETFs) cotados em bolsa, que replicam o preço do metal.

Contudo, é crucial entender que “seguro” não significa “isento de risco”. Nicholas Frappell, da ABC Refinery, sublinha que o ouro é “uma ótima opção de diversificação, num mundo com muitas incertezas”, mas alerta para a sua volatilidade. A história recente mostra que, após uma disparada no início da pandemia de COVID-19 em 2020, os preços sofreram uma correção acentuada meses depois.

Philip Fliers, historiador económico, adverte que grande parte da valorização recente pode estar ligada a compras maciças por parte dos bancos centrais, que aumentam as suas reservas para se protegerem da instabilidade. “É uma estratégia arriscada especular no aumento do preço do ouro”, afirma, recomendando uma perspetiva de longo prazo para este tipo de investimento.

Ouro: Mais do que um investimento

Para além da sua função financeira, o ouro mantém um profundo significado cultural e simbólico em muitas sociedades. Na Índia, é comprado durante festivais como o Diwali, visto como um portador de sorte e prosperidade. As famílias indianas detêm ouro no valor de cerca de 88,8% do PIB do país. A China é o maior consumidor mundial, com picos de procura associados a celebrações como o Ano Novo Lunar.

A relativa escassez do metal – estima-se que toda a produção histórica caiba em três a quatro piscinas olímpicas – é um dos pilares do seu valor intrínseco.

Conclusão

Investir em ouro pode ser uma estratégia válida para diversificar uma carteira e procurar proteção em períodos de incerteza económica e geopolítica. No entanto, não é uma solução infalível. O seu preço é volátil e sensível a mudanças nas políticas monetárias e ao sentimento do mercado. Como qualquer investimento, requer análise, ponderação dos riscos e, preferencialmente, um horizonte temporal alargado. Antes de tomar uma decisão, consulte um consultor financeiro para avaliar a adequação deste ativo ao seu perfil e objetivos.