A Venezuela, detentora das maiores reservas de petróleo do mundo, viu sua produção despencar para cerca de 800 mil barris por dia após a estatização do setor na era chavista. A recente intervenção dos Estados Unidos no país, sob a administração Trump, promete reacender a produção e redefinir a dinâmica energética regional.
Adriano Pires, sócio-fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), aponta um cenário favorável para países da América Latina com reservas de petróleo e gás. “Na Argentina, o governo de Milei é alinhado a Trump. A Bolívia também recentemente teve uma eleição e a direita ganhou”, observa, lembrando que a produção de gás em La Paz também sofreu após a estatização. “Você tem a Guiana, grande estrela de produção de óleo, cujos dois principais investidores são as americanas ExxonMobil e Chevron. Tem a Colômbia e o Chile, onde a direita também venceu.”
No Brasil, o cenário eleitoral para 2026 aponta o presidente Lula como favorito à reeleição, com apetite declarado por novas frentes de exploração. A volta dos americanos à Venezuela e o protagonismo de Caracas devem estimular a competição internacional, inclusive na margem equatorial brasileira, colocando a Petrobras sob pressão.
“Você vai ter empresas de petróleo que vão começar a se questionar: coloco dinheiro na Venezuela ou coloco na margem equatorial? Está sendo criado um concorrente para esses investimentos”, pontua Pires.
O provável aumento da oferta mundial de petróleo, com a produção venezuelana, deve acentuar a queda do preço do barril, hoje negociado em torno de US$ 60. Este cenário já era antecipado pelos analistas devido a uma oferta abundante não acompanhada pela demanda.
Por outro lado, a derrubada do regime de Nicolás Maduro cria uma oportunidade estratégica para o Brasil: aumentar as exportações para a China. Pequim é o destino de 80% do petróleo venezuelano, a custos inferiores aos do mercado. Adriano Pires ressalta que o Brasil está em curva ascendente de produção, com expectativa de alcançar 5 milhões de barris por dia em 2027.
“Além disso, as empresas chinesas de petróleo que compraram campos aqui no Brasil já produzem 350 mil barris por dia, então o Brasil é cada vez mais um país hiperimportante para a China, no sentido de abastecimento de petróleo”, afirma o economista. “Aí eu não sei como é que o Trump vai olhar para isso.”
Para o especialista, o objetivo principal da intervenção americana na Venezuela é barrar o acesso chinês ao petróleo do país e tornar os EUA um player incontornável. “O que ele quer, na realidade, é ter um controle maior sobre as reservas de petróleo mundiais, para poder dar um xeque-mate na China, que hoje é a segunda maior consumidora de petróleo no mundo, e ao mesmo tempo criar uma espécie de mini-OPEP para ele”, indica Pires. “No tabuleiro da geopolítica do petróleo, Trump passa a jogar com muito mais poder.”
Fonte: G1