A recente intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela, que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro, trouxe o foco de volta para o principal recurso do país: o petróleo. O presidente Donald Trump anunciou que os EUA “governarão” a Venezuela até uma “transição segura”, com o objetivo declarado de permitir que grandes empresas petrolíferas americanas entrem no país para reparar a infraestrutura e gerar receita. Este movimento destaca a importância geopolítica e económica do petróleo venezuelano para os interesses norte-americanos.
A Dependência Venezuelana e o Colapso da Indústria
A economia da Venezuela é extremamente dependente do petróleo, que representa cerca de 90% das suas receitas de exportação. O país possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, superiores a 300 mil milhões de barris. No entanto, a sua produção representa menos de 1% da oferta global, uma queda drástica face aos mais de 10% que representava na década de 1960.
Este colapso remonta ao governo de Hugo Chávez, cuja revolução socialista levou à corrupção generalizada na empresa estatal PDVSA e à expulsão de investimentos estrangeiros. A situação foi agravada por acidentes operacionais e, principalmente, pelas sanções económicas impostas pelos Estados Unidos a partir de 2017, que estrangularam ainda mais a capacidade produtiva do país.
O Interesse Histórico e Estratégico dos EUA
Ao longo do século XX, os Estados Unidos foram um parceiro fundamental para o setor petrolífero venezuelano. Empresas como a ExxonMobil e a ConocoPhillips tiveram os seus ativos expropriados durante o governo Chávez, gerando reclamações de indemnização que nunca foram pagas – o que Trump classifica como “petróleo roubado”.
Apesar das sanções, a empresa americana Chevron manteve uma presença no país através de licenças especiais, primeiro concedidas pelo governo Biden em 2022 e renovadas por Trump em 2025. Após a captura de Maduro, a Chevron afirmou que operaria em “conformidade com todas as leis”, posicionando-se como a beneficiária mais imediata de uma eventual abertura.
Por que os EUA Precisam do Petróleo Venezuelano?
Os Estados Unidos são o maior produtor mundial de petróleo, mas a sua produção é maioritariamente de petróleo bruto leve. Muitas das suas refinarias, especialmente na costa do Golfo do México, estão otimizadas para processar petróleo bruto pesado e viscoso. Para abastecê-las, os EUA importam este tipo de crude de países como o Canadá e o México, exportando grande parte do seu próprio petróleo leve.
“Usar os tipos certos de petróleo bruto mantém as nossas refinarias eficientes, reduz os custos e mantém a segurança energética”, explica a American Fuel and Petrochemical Manufacturers. Reequipar as refinarias para processar apenas petróleo leve americano custaria milhares de milhões e levaria décadas.
A Venezuela, com as suas vastas reservas de petróleo pesado, foi durante décadas um fornecedor crucial para esta indústria refinadora americana. Um novo acesso a este recurso é, portanto, estrategicamente atraente.
Desafios e Incógnitas no Caminho
Apesar do discurso de Trump, existem enormes obstáculos para um retorno do petróleo venezuelano ao mercado americano:
- Cooperação Política: Não está claro se o novo governo interino venezuelano, liderado por Delcy Rodríguez, cooperará plenamente com os EUA na questão petrolífera.
- Infraestrutura Degradada: Anos de sanções e falta de investimento deixaram a infraestrutura petrolífera da Venezuela em estado precário. Especialistas alertam que qualquer aumento da produção será gradual, não súbito.
- Mercado Global Saturado: Os preços do petróleo estão em queda e o mercado enfrenta um excesso de oferta. Um influxo adicional de crude venezuelano poderia deprimir ainda mais os preços.
- A China: A China tem sido um importante parceiro político e económico da Venezuela e é o principal destino das suas exportações de petróleo através de uma joint venture com a PDVSA. Pequim já condenou a intervenção americana, o que adiciona uma camada de complexidade geopolítica.
Em suma, enquanto o petróleo venezuelano representa uma oportunidade estratégica de longo prazo para os interesses energéticos dos EUA, a sua exploração em larga escala enfrenta uma série de desafios políticos, logísticos e de mercado que dificilmente serão resolvidos no curto prazo.
Fonte: G1