Após uma valorização de quase 34% em 2025, o Ibovespa inicia 2026 em ritmo acelerado, renovando máximas históricas e mantendo o otimismo no mercado financeiro. O principal índice da bolsa brasileira já registrou sete recordes de fechamento apenas em janeiro, alcançando a marca inédita de 181.919 pontos e acumulando alta de quase 13% no ano. Em 12 meses, a valorização chega a 45%.
Para analistas, a empolgação não é passageira. A expectativa é de que o Ibovespa mantenha o fôlego e encerre 2026 com desempenho sólido, impulsionado por fatores econômicos relevantes. Entre os principais vetores estão os possíveis cortes de juros no Brasil e nos Estados Unidos, movimentos que tendem a favorecer ativos de risco, como ações.
Além disso, as ofensivas geopolíticas do presidente americano, Donald Trump, têm gerado instabilidade nas economias desenvolvidas, levando investidores a buscar oportunidades em mercados emergentes como o brasileiro, visto como um “porto seguro”.
No entanto, o cenário não é uma garantia. Os mesmos fatores de incerteza que hoje favorecem o mercado podem, dependendo dos desdobramentos, frear ou reverter a alta. A imprevisibilidade de Trump e o cenário eleitoral brasileiro pesam especialmente nessa equação.
Juros no radar e o Brasil como refúgio
O Banco Central do Brasil (BC) deve iniciar o ciclo de cortes da Selic no primeiro trimestre. O mercado projeta uma redução de 2,75 pontos percentuais até o fim de 2026, levando a taxa de 15% para 12,25% ao ano. Nos EUA, o Federal Reserve (Fed) também deve manter os juros em trajetória de queda, após três cortes em 2025.
Juros mais baixos nos EUA diminuem o rendimento dos títulos do Tesouro americano (Treasuries), considerados os investimentos mais seguros do mundo. Isso incentiva a migração de capital para aplicações mais rentáveis em mercados emergentes, beneficiando a bolsa e o real brasileiros.
“Juros mais baixos tornam outros ativos mais atrativos, como as ações. Esse é um lado importante da balança”, explica André Galhardo, economista-chefe da Análise Econômica. Ele acrescenta que os riscos geopolíticos intensificados por Trump têm tornado o Brasil um destino atrativo, com potencial de boa rentabilidade.
O papel do investidor estrangeiro
O capital internacional tem sido crucial para a valorização do mercado interno. Em 2025, investidores não residentes aplicaram R$ 25,4 bilhões em compras líquidas na bolsa. Em 2026, até 20 de janeiro, esse montante já soma R$ 8,7 bilhões.
“O investidor estrangeiro segue sendo o principal responsável pela valorização do mercado local nos últimos meses. Se a rotação de recursos globais para mercados emergentes continuar, a probabilidade de o índice renovar máximas é grande”, avalia Ricardo Peretti, estrategista da Santander Corretora.
Os riscos no horizonte: Volatilidade à vista
A palavra que deve resumir o Ibovespa em 2026 é volatilidade. Embora as projeções apontem para saldo positivo, o sobe e desce da bolsa deve ganhar protagonismo, influenciado pelo fator Trump e pelas eleições brasileiras em outubro.
“Tudo isso pode afetar o ambiente de negócios e trazer problemas para algumas companhias. Esse é o outro lado da balança, com potencial de impacto negativo”, analisa André Galhardo.
Dyego Galdino, CEO da Global 360 Invest, alerta que a política comercial de Trump, com ameaças e tarifas, pode gerar pressão inflacionária global e afetar os preços das commodities, desacelerando os resultados das grandes empresas.
Rafael Costa, fundador da Cash Wise Investimentos, lembra que a alta de 2025 foi puxada por fatores externos e que o Brasil ainda enfrenta desafios fiscais. “Alguns países tiveram resultados muito melhores do que o Brasil, como Polônia, Coreia do Sul e a própria Colômbia”, diz, ao destacar os riscos nas contas públicas.
O peso das eleições brasileiras
O pleito de outubro será central para a volatilidade da bolsa e do dólar. A oscilação do Ibovespa em dezembro, após o anúncio da pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), foi um termômetro do que pode acontecer.
Para o mercado, a disputa eleitoral amplia a incerteza sobre ajustes fiscais mais consistentes. “A Faria Lima não está preocupada necessariamente com o nome do vencedor, mas com os rumos da economia no próximo governo”, diz Rafael Costa. “Porém, é difícil esperar mudanças econômicas do atual presidente. Então, a reeleição de Lula pode causar uma quebra de expectativa.”
André Galhardo acredita que um ajuste nas contas públicas é inevitável e deverá ser anunciado no início de 2027, independentemente do vencedor. “Qualquer vencedor terá de adotar uma política de contenção de gastos, o que pode impactar positivamente o dólar e o mercado de ações.”
Projeções para o índice: Até onde pode ir?
Caso o cenário positivo prevaleça, há espaço para que o Ibovespa ultrapasse, pela primeira vez, os 200 mil pontos. As projeções variam:
- Itaú BBA: Previsão base de 185 mil pontos ao fim de 2026, com cenário otimista acima de 252 mil pontos.
- Santander Corretora: Projeta que o índice alcance 195 mil pontos, com sucessivas renovações de recordes.
“Onde o Ibovespa vai parar? Aos 180 mil, 200 mil, 250 mil pontos? Ninguém sabe. Mas, sim, há uma grande possibilidade de o mercado continuar avançando neste ano”, afirma Rafael Costa, ressaltando que os avanços não serão lineares devido à volatilidade.
O ano de 2026 promete ser de altos e baixos para o Ibovespa. Enquanto os ventos externos sopram a favor, a combinação entre política doméstica e incertezas globais deve manter os investidores atentos a cada movimento do mercado.