A historiadora britânica Eliza Filby, autora do livro ‘Herançocracia’, apresenta um conceito provocador para explicar a dinâmica econômica atual: para muitos com menos de 45 anos, a lealdade aos pais pode ser mais crucial para adquirir um imóvel do que a lealdade ao empregador.
O termo ‘herançocracia’ é proposto como o oposto da meritocracia. Descreve uma sociedade onde o acesso ao ‘banco da mamãe e do papai’ – o patrimônio familiar – define oportunidades, redes de segurança e a plataforma para a vida adulta, mais do que o salário ou a educação formal.
Este fenômeno impacta profundamente as gerações X, millennials e, prospectivamente, as gerações Z e Alpha. A promessa meritocrática – de que trabalho árduo e educação garantem sucesso – mostra-se frágil diante de realidades como o custo disparado da habitação e da educação, e a estagnação salarial.
Filby argumenta que o sistema educacional, ampliado no pós-guerra, consolidou uma narrativa única de sucesso (universidade, diploma, carreira estável) que não consegue atender a todos. O resultado foi uma geração endividada, para quem o valor monetário de um diploma diminuiu enquanto seu custo explodia.
Neste contexto, a família intervém onde o Estado e o mercado falham. O ‘banco da mamãe e do papai’ não se resume a grandes doações para entrada de imóveis; inclui teto, comida, cuidados com os netos e suporte no dia a dia, formando uma rede de segurança essencial. Esta solidariedade familiar cresceu em todos os níveis de renda, mas também aprofunda desigualdades: quem não tem esse suporte familiar fica em desvantagem estrutural.
As consequências vão além das finanças. A herançocracia influencia escolhas de relacionamento, com uma tendência maior à formação de casais entre pessoas com patrimônios familiares similares. Também cria uma ‘classe média espremida’, especialmente na geração X, que precisa apoiar filhos adultos e cuidar de pais idosos simultaneamente.
Para Filby, compreender a herançocracia é o primeiro passo para reformular o contrato social. O risco de ignorá-la é a erosão de uma crença fundamental: a de que o esforço vale a pena. Quando isso se perde, algo mais profundo do que a economia começa a desmoronar.