Na Rússia, o quarto ano da guerra na Ucrânia e uma reforma tributária agressiva estão a criar uma tempestade perfeita para as pequenas e médias empresas. O cenário é de lojas a fechar portas, custos a disparar e um sentimento generalizado de abandono por parte do Estado.

Denis Maksimov, proprietário da padaria Mashenka nos arredores de Moscou, tornou-se um símbolo involuntário desta crise. Após um apelo direto ao presidente Vladimir Putin num programa televisivo, conseguiu atenção temporária, mas a sua luta contra os novos impostos continua. A sua história, longe de ser única, espelha a de milhares de empresários.

A Reforma que Apertou o Cerco

O cerne do problema está nas alterações fiscais implementadas. O Kremlin, à procura de novas fontes de receita face à queda das receitas do petróleo e ao aumento do défice orçamental, voltou-se para os consumidores e para as pequenas empresas.

  • O limite de faturação para pagamento de IVA foi drasticamente reduzido de 60 milhões para 20 milhões de rublos, com planos para descer até aos 10 milhões.
  • Empresas que usavam o simplificado “sistema de patente” (pagamento fixo anual) são agora forçadas a regimes fiscais mais onerosos se ultrapassarem o novo limite.
  • Muitas passam a pagar, no mínimo, 6% de imposto sobre o rendimento e 5% de IVA.

“Para ser franco, estamos a olhar para o futuro sem otimismo. Muitas empresas vão fechar”, alertou Maksimov durante o seu apelo.

O Rosto Humano da Crise: Beleza, Confeitaria e Desespero

Para além das padarias, o setor da beleza é um dos mais afetados. Darya Demchenko, proprietária de uma rede de salões em São Petersburgo, descreve um ano de medo e ansiedade. Dos seus quatro estabelecimentos, um fechou e outro foi vendido.

“Este ano, não sentimos nenhum apoio. Temos a sensação de que querem nos calar”, desabafa. Além do aumento brutal da carga fiscal, viu os custos com aluguer, fornecedores e segurança subirem 30%, enquanto a procura pelos seus serviços caía.

Ilsiya Gizatullina e Railya Shayhieva, donas de uma confeitaria em Kazan, tomaram a decisão dolorosa de fechar as portas. “Foi como amputar um membro. Era a nossa vida, 24 horas por dia”, conta Gizatullina. Para elas, a pandemia foi um desafio temporário, mas a nova realidade fiscal veio para ficar e tornou o negócio insustentável.

Um Setor Estratégico em Colapso

As pequenas e médias empresas representam pouco mais de 20% da economia russa. Chris Weafer, CEO da consultoria Macro-Advisory, vê a reforma como uma “estratégia deliberada” para criar receitas estáveis, mas alerta para as consequências a longo prazo.

“O único motor de expansão, crescimento e inovação necessário numa economia é o setor que mais sofreu nos últimos quatro anos e continua a sofrer hoje”, afirma. Lyalya Sadykova, presidente da Associação do Setor da Beleza em São Petersburgo, estima que 10% dos estabelecimentos da cidade já fecharam e prevê uma “debandada em massa” após o prazo de pagamento de impostos de abril.

Enquanto isso, imagens de espaços comerciais vazios na avenida Nevsky Prospekt, a principal artéria de São Petersburgo, circulam nas redes sociais como um testemunho silencioso do impacto económico da guerra e da política fiscal. O futuro para os pequenos empresários russos parece, para muitos, tão sombrio como as montras das lojas fechadas.