A escalada do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã tem gerado turbulências na economia global, com impactos diretos nos preços do petróleo e fertilizantes. O bloqueio do Estreito de Ormuz pela Guarda Revolucionária iraniana e a redução da oferta de países do Golfo Pérsico já pressionam os custos de energia e insumos agrícolas em todo o mundo.
O índice CRB, um dos principais termômetros de matérias-primas, atingiu recentemente seu maior patamar desde 2011, refletindo a tensão no mercado. Diante desse cenário, surge a questão: o Brasil, como grande produtor e exportador de commodities, pode viver um novo “boom” semelhante ao experimentado nas décadas de 2000 e 2010?
Contexto atual versus o boom anterior
O chamado “boom das commodities” do início do século XXI foi impulsionado principalmente pelo acelerado crescimento da China, que demandava volumes crescentes de matérias-primas para alimentar sua expansão industrial. Na época, o país asiático registrava taxas anuais de crescimento do PIB superiores a 9%, tornando-se o maior parceiro comercial do Brasil.
Hoje, a situação é diferente. A economia chinesa desacelerou, projetando para 2026 uma meta de crescimento abaixo de 5% – a mais baixa desde 1991. Ainda assim, a China permanece como destino crucial para as exportações brasileiras: compra 80% da soja, 56% do minério de ferro e 45% do petróleo bruto produzido no país.
Impactos da guerra no abastecimento global
O fechamento do Estreito de Ormuz afeta diretamente o fluxo de petróleo, gás natural e fertilizantes – cerca de um terço da ureia mundial, fertilizante nitrogenado essencial, passa por essa rota. O Irã é um dos maiores exportadores globais desse insumo.
Francisco Américo Cassano, professor de Relações Internacionais da Universidade Santa Cecília, explica que um bloqueio prolongado pode pressionar os preços das commodities agrícolas. “Para a China, por exemplo, o fornecimento de grãos do Brasil deverá ficar no mesmo patamar. Só que, se houver alta dos preços, isso gera uma maior receita. Não é uma coisa muito significativa, mas pode acontecer”, afirma.
Oportunidades e riscos para o Brasil
Jorge Arbache, professor de economia da Universidade de Brasília (UnB), destaca que a distância geográfica e política do Brasil em relação ao conflito pode ser uma vantagem. “O país se torna uma opção de investimento de uma forma geral, exatamente porque está longe das tensões. Tem várias oportunidades de negócios – na agricultura, na energia e diversos outros setores”, avalia.
No médio e longo prazos, a tendência de alta nos preços de energia e alimentos – agravada pelas mudanças climáticas e pela instabilidade geopolítica – pode beneficiar o Brasil como exportador. No entanto, Arbache ressalta que esse cenário é “condicionado pela incerteza”.
Desafios no curto prazo
Imediatamente, os efeitos são mais complexos. O aumento do risco geopolítico pode elevar o risco-país e o custo de crédito para economias emergentes. Além disso, a alta do petróleo e dos fertilizantes impacta diretamente os custos de produção e logística no Brasil, com reflexos nos preços internos.
“Os preços tendem a subir também porque o produtor está recebendo mais lá fora e isso impacta diretamente os preços internos, gerando mais inflação”, alerta Cassano.
Outro fator preocupante é a possível redução de investimentos de fundos soberanos de países do Golfo Pérsico – como Emirados Árabes, Catar e Arábia Saudita –, afetados por retaliações iranianas a suas infraestruturas energéticas.
Conclusão: benefício condicional e assimétrico
Embora o Brasil possa se beneficiar de uma valorização das commodities que exporta, especialistas não veem as condições para um “boom” comparável ao do passado. O contexto é distinto, marcado por desaceleração chinesa, pressões inflacionárias globais e incertezas prolongadas.
No curto prazo, o consumidor brasileiro pode sentir os efeitos negativos da guerra através de preços mais altos. No longo prazo, a maior atratividade do Brasil para investimentos pode gerar crescimento e emprego. Como resume Arbache: “É uma guerra que mirou um alvo e está acertando em vários outros, com múltiplas complicações econômicas”.