A percepção do governo Lula sobre o comportamento da Casa Branca durante as eleições brasileiras sofreu uma mudança significativa. Diplomatas avaliam que, diante da estabilidade na relação entre Lula e Donald Trump, a tendência é de que não haja tentativas explícitas de influência no processo eleitoral ou apoio declarado a um candidato da direita.

Apesar do otimismo, há no entorno de Lula o entendimento de que o presidente americano é volúvel por natureza, o que obriga o Brasil a manter-se alerta e a atuar estrategicamente para preservar a proximidade entre os dois mandatários.

“Acho que a tendência até a eleição é de uma postura mais recatada do lado do Executivo americano”, afirmou uma fonte governamental que acompanha as tratativas com a Casa Branca.

Diplomatas atribuem a redução do risco de interferência à relação pessoal construída nos últimos meses entre Lula e Trump. Essas fontes citam a forma cortês — e, em alguns momentos, até carinhosa — com que o presidente americano tem tratado o petista.

Na avaliação desses diplomatas, a boa relação pessoal funciona como um fator de blindagem, mesmo diante de pressões internas e externas para que a Casa Branca favoreça uma candidatura de direita.

Quando as tarifas de Trump foram impostas ao Brasil, em julho do ano passado, ministros e diplomatas brasileiros interpretaram a decisão como uma tentativa de forçar uma mudança de regime no país — seja para reabilitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, seja para desgastar o governo Lula em ano pré-eleitoral.

No fim do ano passado, mesmo após Washington relaxar as tarifas e recuar na aplicação da Lei Magnitsky ao ministro Alexandre de Moraes, persistia no entorno de Lula a desconfiança de que, mais adiante, a gestão Trump voltaria a agir para favorecer um candidato direitista, mais alinhado às posições da Casa Branca. Naquele momento, Lula e Trump já haviam conversado por telefone e se encontrado pessoalmente na Malásia.

Em dezembro, o Departamento de Estado dos Estados Unidos divulgou sua nova doutrina de segurança nacional, que prevê um mundo organizado por zonas de influência, com a América Latina subordinada aos interesses de Washington. Nessa configuração, os EUA passam a se atribuir o direito de interferir em processos internos de qualquer país inserido em sua área de influência.

Naquele mês, um diplomata próximo ao governo afirmou não ter ilusões sobre a volatilidade da relação bilateral. “Os americanos querem uma zona de influência totalmente subordinada. Não podemos achar que todas as nossas preocupações se dissiparam.”

Daqui até as eleições, o esforço da diplomacia brasileira será manter a proximidade com a Casa Branca como uma espécie de vacina contra movimentos da oposição bolsonarista. Nesse sentido, o governo tem insistido na necessidade de tirar do papel ações de cooperação com os Estados Unidos para combater o crime organizado.

A ênfase no tema tem relação com o cenário eleitoral. O Palácio do Planalto prevê que segurança pública seja um debate central no pleito e que a oposição tentará desgastar Lula com esse assunto. Discutir o tema diretamente com Trump, portanto, é visto como uma forma de tentar neutralizar ações da oposição — sobretudo do grupo ligado ao senador Flávio Bolsonaro, provável candidato do campo da direita.