O Ministério da Justiça enviou um ofício ao TikTok nesta terça-feira (10) dando um prazo de cinco dias para a plataforma se explicar sobre a trend viral “se ela disser não” ou “treinando caso ela diga não”. Nos vídeos, homens simulam reações violentas contra mulheres diante de uma possível rejeição a pedidos de namoro ou casamento.

A pasta argumenta que a obrigação do TikTok vai além da remoção de conteúdos específicos solicitados pela Polícia Federal (PF), devendo incluir a remoção proativa e imediata de materiais que promovam a violência. O ofício, assinado pelos secretários de Direitos Digitais, Segurança Pública e do Consumidor, questiona uma possível “falha sistêmica” na moderação, dada a circulação massiva dos vídeos.

O governo solicita uma descrição detalhada das medidas técnicas para detecção e remoção de conteúdo misógino, incluindo a existência de sistemas automatizados para análise de trends emergentes. Também pede informações sobre se os mecanismos de recomendação algorítmica e de impulsionamento de conteúdo foram auditados quanto ao risco de amplificar esse tipo de material, além de dados sobre possível monetização dos vídeos removidos.

Em resposta ao g1, o TikTok afirmou que agiu de forma proativa, iniciando a remoção dos vídeos no fim de semana anterior. A plataforma disse que, quando a PF apresentou a lista de conteúdos investigados na segunda-feira, grande parte já havia sido retirada do ar por violar as Diretrizes da Comunidade. Os links restantes foram derrubados no mesmo dia, e a empresa mantém colaboração total com as autoridades. Em nota, o TikTok reforçou: “Não permitimos discurso de ódio, comportamento de ódio ou promoção de ideologias de ódio”.

A trend, que ganhou força nas últimas semanas, mostra criadores simulando situações de abordagem romântica seguida de encenações agressivas – como socos em objetos ou golpes com faca – após a legenda “treinando caso ela diga não”. Uma análise do g1 de vinte vídeos publicados entre 2023 e 2025, de perfis com até 177 mil seguidores, constatou mais de 175 mil interações.

O caso surge em um contexto de recorde de feminicídios no Brasil. Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública mostram que 1.470 mulheres foram vítimas desse crime em 2025, superando o recorde anterior de 1.464 em 2024. Na prática, quatro mulheres foram assassinadas por dia no país no ano passado. A Polícia Federal já derrubou perfis e abriu inquérito para investigar os vídeos.