A França implementou, a partir de quinta-feira (8), uma suspensão temporária de um ano para a importação de diversos produtos agrícolas, com foco especial nos originários da América do Sul. A medida visa produtos tratados com agrotóxicos proibidos na União Europeia e é uma resposta direta à crescente pressão dos agricultores franceses, que temem a concorrência desleal com a iminente assinatura do acordo comercial entre a UE e o Mercosul.
O decreto francês, que necessita da aprovação final da Comissão Europeia, afeta frutas como abacates, mangas, goiabas, cítricas e até batatas. A entrada destes produtos no território francês está condicionada à ausência de cinco substâncias específicas: mancozeb, tiofanato-metílico, carbendazim, glufosinato e benomil. Estas são fungicidas e herbicidas proibidos na Europa, mas cujo uso é autorizado em países como o Brasil.
O governo francês enfatizou que a medida não é dirigida especificamente contra a América do Sul, mas aplica-se a qualquer país que utilize os agrotóxicos em questão. No entanto, dado o perfil dos produtos listados, o impacto recairá principalmente sobre exportadores sul-americanos.
A decisão ocorre num contexto de forte mobilização do setor agrícola francês, que tem bloqueado estradas com tratores em protesto contra o acordo UE-Mercosul. Os produtores europeus receiam que a abertura do mercado permita a entrada maciça de carne, arroz, mel e soja do Mercosul, considerados mais competitivos devido a normas de produção menos rigorosas, em troca da exportação de veículos e máquinas europeias.
Para acalmar os ânimos, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, propôs um financiamento adicional de cerca de 45 mil milhões de euros para os agricultores no âmbito da futura Política Agrícola Comum (PAC). Paralelamente, os ministros da Agricultura da UE reuniram-se em Bruxelas para discutir as preocupações do setor.
Apesar da oposição interna em França, onde o acordo é rejeitado por todos os partidos políticos, a assinatura do tratado com o Mercosul poderá avançar a 12 de janeiro, caso obtenha uma maioria qualificada no Conselho Europeu. O governo do Presidente Emmanuel Macron enfrenta assim uma delicada pressão, equilibrando as relações comerciais internacionais com a sustentabilidade do setor agrícola nacional.
Fonte: G1